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Thursday, August 23, 2012

Egito ignora os Estados Unidos



por M. K. Bhadrakumar*, traduzido por Vinicius C. para o Batalha de Ideias.


A decepção deve estar dominando em Washington. O Egito afasta-se da aliança com os EE.UU. e a amarga verdade já não se pode ocultar ou dissimular.

Washington não esperava que o “lado correto da história” se desenvolvesse desta maneira. A Primavera Árabe gerou um fruto estranho no Egito, uma pura raça, não como os híbridos da Tunísia, Líbia ou Iêmen.

Deve-se considerar o seguinte: o presidente Barack Obama foi um dos primeiros chefes de Estado que felicitou Mohammed Morsi por sua vitória eleitoral em maio. Obama rompeu o protocolo e chamou-o para cumprimentá-lo mostrando a ansiedade de Washington de desenvolver uma esplêndida relação com ele.

Em seguida, Obama escreveu uma carta a Morsi e enviou ao secretário adjunto de Estado, Williams Burns, ao Cairo para entregá-la pessoalmente. Depois de Burns, a secretária de Estado Hillary Clinton foi ao Cairo de novo para uma audiência com Morsi. Então, ocorreu a visita ao Cairo do secretário da Defesa Leon Panetta. Tudo isto no primeiro mês da presidência de Morsi.

Panetta voltou a Washington muito satisfeito porque os dirigentes militares egípcios, que têm sido os protagonistas na estratégia regional dos EE.UU. e os defensores dos interesses estadunidenses no Egito, não só se relacionavam bem com Morsi como inclusive tinham uma agenda comum.

O resto já é parte da história. Dias ou semanas depois do otimismo de Panetta, Morsi mandou sem mais os militares, dos corredores do poder político, de volta a seus quartéis. Washington não teve outra alternativa a não ser pôr boa cara ante esta situação e quase difundiu o embuste de que Morsi consultou ao governo de Obama antes de tomar medidas em relação aos militares egípcios.

No entanto, a verdade saiu à luz no final de semana. Os EE.UU. podem estar enfrentando um imenso revés em seus esforços para influenciar a presidência de Morsi. A carta que Burns levou há um mês continha aparentemente um convite de Obama para que Morsi visitasse Washington.

Em lugar de fazê-lo, Morsi viajará a China e ao Irã.

Anunciou-se no domingo no site oficial do presidente egípcio. Ao que parece, Morsi combinará as visitas a China e ao Irã. Parece que realizará uma visita de três dias à Chine na próxima segunda-feira por convite do presidente Hu Jintao e de Pequim tem a intenção de viajar a Teerã na quinta-feira para assistir à Cúpula do Movimento dos Não Alinhados.

Pequim ainda não anunciou a visita de Morsi. O jornal de propriedade governamental China Daily publicou um comentário na segunda-feira intitulado “A visita de Morsi ao Irã poderia remodelar a paisagem política”, que intencionadamente evitou toda sugestão de que o itinerário do presidente também incluiria Pequim.

No entanto, o emblemático jornal egípcio Al-Ahram informou que Morsi e Hu “têm a intenção de discutir temas cruciais enfrentados pelo mundo árabe, como a situação síria e o problema palestino. Os dois presidentes também discutirão maneiras de realçar o intercâmbio comercial entre seus respectivos países além do aumento do investimento chinês em Egito”.

Al-Ahram resumiu: “As duas visitas podem marcar mudanças na política exterior do Egito, considerando que ambos países [China e Irão] têm tensas relações com os EE.UU., do qual Egito tem sido um aliado leal, especialmente durante o regime do presidente derrubado Hosni Mubarak”.

Cão fraldiqueiro de ninguém

Decerto, o Oriente Médio dá-se conta do fato de que os estadunidenses não são bem vistos no Cairo. Sem dúvida, esta decisão leva a marca da Irmandade Muçulmana. O que se propõe?

Primeiro, os Irmãos Muçulmanos sabem que isto será muito bem recebido pelo clima público do Egito, que demanda veementemente uma nova orientação da política exterior que se desfaça do peso morto da cooperação com os EE.UU. e Israel da era Mubarak e volte à política exterior independente do país.

Segundo, Morsi não quer depender demasiadamente da “assistência” do Fundo Monetário Internacional e/ou dos abastados Estados do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), que se vê pressionado a aceitar apesar de vir associada a condições políticas.

O Fundo Monetário Internacional dita termos duros para um empréstimo de 3,2 bilhões de dólares para o Egito. O Banco Islâmico de Desenvolvimento, com sede em Jeddah, aceitou outorgar financiamento ao Egito por 2,5 bilhões de dólares. O Catar depositará dois bilhões no Banco Central do Egito a fim de aliviar a escassez de divisas estrangeiras no Egito. No ano passado, a Arábia Saudita anunciou a ajuda ao Egito por quatro bilhões de dólares em “empréstimos com juros reduzidos, depósitos e subvenções”. Tratava-se de uma intensa luta dirigida pelos EE.UU. para sobornar a alma de Egito.

É possível que Morsi veja a China como uma potencial investidora na economia egípcia porque Pequim não fixa condições à cooperação econômica e atua geralmente segundo as regras do mercado, ajustadas às políticas neoliberais que em geral serão adotadas por Morsi. O importante é que os Irmãos sabem perfeitamente que os países do CCG –Bahrain, Kuwait, Omã, Catar, Arábia Saudita – mas especialmente a Arábia Saudita, veem-nos com desagrado e inquietude, como um perigo existencial para seus regimes autoritários. A Arábia Saudita, em particular, teve uma relação problemática com a Irmandade.

O defunto príncipe herdeiro Nayef utilizou métodos brutais para reprimir as atividades da Irmandade na Arábia Saudita. O jornal do establishment saudita Asharq Al-Awasat demonstrou sua antipatia a Morsi no sábado, quando num artigo assinado, o veterano editor do jornal, Osman Mirghani, escreveu:

O golpe que Morsi deu [nos militares], que lhe permitiu tomar o poder, foi completamente imprevisto, não só para os dirigentes do CSFA [Conselho Supremo das Forças Armadas] como também para o povo egípcio em seu conjunto… Essas decisões foram semelhantes a um golpe de Estado… A Irmandade tratou de dominar a arena política desde que sequestrou a revolução e aproveitou a onda revolucionária para chegar ao governo, apesar do fato de que se uniu bem tarde a essa revolução… A Irmandade debilitou a todos os demais partidos e por isso se negou deliberadamente a cooperar ou se coordenar com eles no período de transição prévio às eleições.

O Egito está governado agora por declarações e decisões “constitucionais” emitidas por um presidente que tem muito mais poder do que teve algum dia Mubarak… Se alguém disser de Morsi… que se libertou, e à presidência, da custodia e da intervenção do exército, terá que formular a pergunta: será seguido pela libertação de Morsi da Irmandade, que parece estar presente a todas suas decisões e medidas?

Deve-se atentar que esta forte crítica apareceu um mês depois da visita de Morsi a Riad por convite do rei Abdullah e dois dias antes da cúpula extraordinária da Organização da Conferência Islâmica (OCI) em Jeddah, na qual participou Morsi.

Disse-se que enquanto se dirigia à cúpula da OCI Morsi chamou à “mudança de regime” na Síria, implicando que o Egito é um dócil seguidor da linha fixada pela Arábia Saudita, Catar e Turquia. Mas, na realidade, Morsi desconsiderou a troika ao propor uma solução à crise síria mediante a formação de um Grupo de Contato formado por Arábia Saudita, Turquia, Irã e Egito, que poderia mediar um diálogo e a reconciliação síria conducente a uma transição política pacífica numa atmosfera livre de violência.

Aperto de mãos através da Arábia

Certamente, a inclusão do Irã por parte de Morsi no Grupo de Contato proposto representou ignorar a Arábia Saudita, que promoveu a cúpula da OCI. Depois houve a linguagem corporal, que é importantíssima em conferências entre árabes. À margem da cúpula da OCI, Morsi trocou apertos de mão e beijos com o presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad e falou-lhe de maneira muito calorosa.

Teerã cumprimentou rapidamente a proposta de Morsi, o que por sua vez levou ao apreço pela Irmandade no Cairo que viu na calorosa reação de Teerã uma confirmação inconfundível de que o Egito começa a recuperar parte da influência diplomática e estratégica que teve outrora na região. Uma espécie de sociedade de admiração mútua formou-se entre Cairo e Teerã em meio aos áridos desertos da Península Arábica.

Três coisas emergiram da participação de Morsi na cúpula da OCI. Primeiro, Morsi mostrou que o Egito propõe levar a cabo uma política exterior independente dos planos ocidentais ou dos países petroleiros do Golfo. Isto é, o Egito já não seguirá docilmente seus passos nem aceitará uma posição inferior.

Segundo, o Egito não vê a Turquia como um modelo, apesar da sonora propaganda ocidental desde o aparecimento da Primavera Árabe de que o islamismo do tipo ao que se adere o atual governo dirigido por Recep Tayyip Erdogan é uma receita válida para um Oriente Médio doente. Erdogan voltou de uma visita ao Cairo no ano passado imaginando que era uma estrela do rock para os egípcios, mas ao que parece não é o que pensa Morsi.

Terceiro, a decisão de Morsi de incluir o Irã como sócio na busca da paz na Síria significou uma rejeição do enfoque ocidental e saudita-turco. À margem da cúpula da OCI, o Ministro de Relações Exteriores egípcio Mohammed Amr também se reuniu com seu homólogo iraquiano Al Akbar Salehi para urgir que o Teerã ajude a solucionar a crise síria.

Na verdade, ainda é cedo, mas a decisão de Morsi de visitar o Irã (país com o qual o Egito não tem relações diplomáticas) só pode ser vista como um ato estratégico com profundos envolvimentos para a segurança regional e a política global. Requer uma verdadeira explicação.

Por uma parte, o Irã é o primeiro país muçulmano depois da Arábia Saudita que visita Morsi no Oriente Médio. A rua árabe tomará nota de que os Irmãos Muçulmanos no Egito recusam a noção (propagada pela Arábia Saudita e pelo Ocidente) de uma “meia lua xiita” dirigida pelo Irã que propõe uma ameaça às comunidades sunitas no Oriente Médio muçulmano.

Evidentemente, o Egito propõe normalizar suas relações com o Irã, enquanto o Egito de Mubarak estava inundado de temores maniqueístas de conspirações iranianas para desestabilizá-lo. As coisas mudaram. O líder adjunto da Irmandade, Mahmud Ezzat, disse recentemente a Associated Press: “O antigo regime costumava converter a qualquer de seus rivais [de Mubarak] num fantasma. Nós [a Irmandade] não queremos fazer como Mubarak e exagerar no temor contra o Irã”.

Do ponto de vista de Teerã, isto representa um grande progresso diplomático e geopolítico num tempo difícil quando as conversas P5+1 do Irã estão num ponto morto. Dito simplesmente, as equações no Oriente Médio de repente caíram na incerteza. Pretendia-se que tudo fosse um pequeno logaritmo do “campo de Teerã (Irã, Síria, Hezbollah e Hamas)” contra o “campo estadunidense (Arábia Saudita, Israel, Turquia e Catar)”. Mas Morsi está cruzando despreocupadamente essa barreira geopolítica.

Poderia ocorrer uma grande reordenação da política regional? No mínimo, o caleidoscópio está mudando e de repente parece que as situações da Síria, Líbano ou Gaza poderiam estar carregadas de novas possibilidades. (Na verdade, Morsi deixou claro na cúpula da OCI que qualquer enfoque da crise síria não deve tirar a atenção do problema palestino, que é o tema crucial para o mundo muçulmano).

A grande pergunta é que impulsiona à Irmandade do Egito. A crença geral é que os Irmãos Muçulmanos são gente muito cautelosa e que demorarão o tempo necessário para reajustar o cálculo de poder no Cairo, para não falar da bússola da política exterior do Egito. Mas no último período de oito dias, começou a emergir uma nova imagem dos Irmãos Muçulmanos. Qual é a explicação?

Nenhuma volta à era Mubarak

Em retrospectiva, as medidas de Morsi em relação aos militares há uma semana foi um golpe preventivo. Os Irmãos Muçulmanos consideraram que sua melhor possibilidade seria aproveitar a onda de altas expectativas na opinião pública a favor de mudanças fundamentais nas políticas nacionais e que qualquer demora e desídia em fazê-lo levaria a que os militares conseguissem superioridade e a neutralizar politicamente a liderança de Morsi.

Igualmente, os Irmãos Muçulmanos desconfiam do papel dos EE.UU. e de suas verdadeiras intenções em relação à liderança de Morsi. Há que recordar que a Irmandade (e o Hamas) acusaram explicitamente o Mossad de Israel de ser responsável pelo ataque terrorista no Sinai no dia 5 de agosto.

Não está claro o que conduziu os Irmãos Muçulmanos a chegar a essa conclusão, mas o Sinai tem sido um lugar sem lei durante décadas e é inconcebível que os serviços de inteligência israelenses não tenham prestado atenção aos grupos islâmicos militantes lá presentes. Na realidade, o que verdadeiramente sucedeu a 5 de agosto segue sendo uma incógnita e é duvidoso achar que os beduínos possam organizar uma operação tão profissional.

Ademais, há outro fator irritante. O ataque terrorista no Sinai ocorreu depois das reuniões de Morsi com os dirigentes do Hamas no Cairo e sua decisão de aliviar parcialmente as restrições no cruzamento em Rafah, o que por suposto converteu num deboche o “bloqueio” de Gaza por Israel.

Seja como for, o ataque no Sinai teve lugar inclusive enquanto os EE.UU. aumentavam a pressão sobre Morsi para que ressuscitasse de modo ótimo as relações de segurança e militares da era Mubarak entre Cairo, Washington e Tel Aviv. Tanto Clinton como Panetta fizeram o possível para persuadir Morsi de recuperar o espírito da cooperação tripartite dos EE.UU.-Egito-Israel em relação ao Sinai.

No entanto, os Irmãos Muçulmanos se dariam conta de que semelhante regresso às políticas em relação a Israel da era Mubarak seria profundamente recusado pelo público egípcio –islâmicos e seculares da mesma forma – e ademais desacreditaria à Irmandade e erosionaria a credibilidade da presidência de Morsi, em suma, um suicídio político. Os Irmãos Muçulmanos também saberiam que qualquer configuração das estratégias regionais com o foco colocado no terrorismo eliminaria toda possibilidade de mudança política em relação a Gaza.

Resumindo, a decisão de Morsi de abrir uma linha para Pequim e Teerã deve ser considerada num contexto de grande profundidade. Os Irmãos Muçulmanos esperam com apreensão um plano estadunidense-israelense para desestabilizar o governo de Morsi se não se ajustar aos ditames de Washington. Por isso, procuram possibilidades de reduzir o atual nível de dependência exagerada dos EE.UU. e seus aliados do Golfo diversificando as relações externas do país e agregando cooperações contrapostas que ajudem a realçar a autonomia estratégica do país.

A próxima semana promete ser um momento definidor na política no Oriente Médio e os alinhamentos entre os árabes quando Morsi viajar a Pequim e a Teerã. Com o afastamento do Egito, as estratégias regionais dos EE.UU. estão muito equivocadas. A pergunta imediata será: o que ganharão, depois de tudo, ao conquistar Damasco com tanta violência brutal e bestialidade insensata se já se perderam o Cairo e Bagdá?

*O embaixador M. K. Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Exerceu suas funções na extinta União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait e Turquia.

Friday, June 29, 2012

Os Estados Unidos e a Síria: Fatos que você deveria conhecer


por Joyce Chediac para o GlobalReasearch. Traduzido por Vinícius C. para O Batalha de Ideias.

O cronograma a seguir analisa a progressão da intervenção dos EEUU-OTAN na Síria e neutraliza a Grande Mentira na mídia corporativa que visa preparar a agressão militar imperialista aberta contra o povo sírio.

● Washington tem canalizado dinheiro para um grupo de oposição de direita da Síria, pelo menos desde 2005. (Washington Post, 16 de abril de 2011)

● Os EEUU reabriram sua embaixada em Damasco em janeiro de 2011 depois de seis anos. Isso não era degelo nas relações. O novo embaixador, Robert S. Ford, que trabalhou até outubro de 2011, é um protegido de John Negroponte, que organizou os esquadrões da morte em El Salvador na década de 1970 e no Iraque, enquanto embaixador lá em 2004-05. Aqueles esquadrões da morte mataram dezenas de milhares. Ford serviu diretamente abaixo de Negroponte na Embaixada dos EEUU em Bagdá.

● Ford "desempenhou um papel central na definição das bases na Síria, bem como estabeleceu contatos com grupos da oposição". Dois meses depois de chegar a Damasco, a insurgência armada começou. (Global Research, 28 de maio)

● A oposição armada a Bashar al-Assad começou em março de 2011, em Daraa, uma pequena cidade na fronteira com a Jordânia. Movimentos de protesto em massa começam geralmente em grandes centros populacionais. Mais tarde, a Arábia Saudita admitiu o envio de armas para a oposição através da Jordânia. (RT, 13 de março)

● Os EEUU e seus aliados da OTAN usaram os protestos populares no Egito, Síria e em outros lugares como uma cobertura para construir o apoio para insurgências de direita cujo objetivo não era ajudar o povo sírio, mas trazer a Síria para o campo pró-imperialista. Quaisquer excessos ou erros por parte do governo Assad não eram o problema real.

● A Liga Árabe, União Europeia e os EEUU começam a imposição de sanções econômicas, uma forma de guerra, contra a Síria em novembro de 2011, sob o pretexto de parar a violência sancionada pelo Estado contra os manifestantes. A intensificação das sanções e o congelamento de ativos sírios fez com que o valor da libra síria caísse em 50 por cento contra o dólar, com o custo dos artigos de primeira necessidade muitas vezes triplicando.

● Os exilados que receberam financiamento dos EEUU tornaram-se parte do Conselho Nacional da Síria. Burhan Ghalioun do Conselho Nacional Sírio disse que iria abrir a Síria para o Ocidente, terminar o relacionamento estratégico do país com o Irã (e com a resistência libanesa e palestina), e realinhar a Síria com os regimes árabes reacionários do Golfo. (Wall Street Journal, 2 de dezembro de 2011)

EEUU e OTAN escalam seu envolvimento

● O ex-agente da CIA Philip Giraldi admitiu que os EEUU estavam envolvidos na Síria e expôs o plano dos EEUU: "A OTAN já está clandestinamente envolvida no conflito da Síria, com a Turquia à frente como ‘procuradora’ dos EEUU. O ministro das Relações Exteriores de Ancara, Ahmet Davitoglu, admitiu abertamente que seu país está preparado para invadir logo que haja um acordo entre os aliados ocidentais a fazê-lo. A intervenção seria baseada em princípios humanitários, para defender a população civil com base na "responsabilidade de proteger", doutrina que foi invocada para justificar a invasão à Líbia. "(Theamericanconservative.com, 19 de dezembro de 2011)

● Giraldi continuou: "Aviões de guerra sem identificação da OTAN estão chegando às bases militares turcas próximas ... à fronteira com a Síria, entregando as armas dos arsenais do falecido Muammar Gaddafi, bem como voluntários do Conselho Nacional de Transição da Líbia que tenham experiência em atiçar voluntários locais contra soldados treinados. ... Franceses e britânicos formadores das forças especiais estão no terreno, ajudando os rebeldes sírios enquanto os responsáveis por operações especiais da CIA e dos EEUU estão fornecendo equipamentos de comunicação e inteligência. ...

● "O frequentemente citado relatório das Nações Unidas que atesta que mais de 3.500 civis foram mortos por soldados de Assad é baseado principalmente em fontes rebeldes e não é confirmado. Da mesma forma, as contas das deserções em massa do Exército sírio e batalhas campais entre desertores e soldados leais parecem ser uma invenção, com poucas deserções confirmadas de forma independente. As alegações do governo sírio de que está sendo atacado por rebeldes armados, treinados e financiados por governos estrangeiros são mais verdadeiras do que falsas. "

● O "Exército Sírio Livre" tem bases de retaguarda na Turquia, é financiado pela Arábia Saudita e pelo Qatar, e é composto de soldados sírios desertores. Spiegel Online menciona uma fonte em Beirute que alega ter visto "'centenas de combatentes estrangeiros que se uniram para o ESL." (15 fev)

● A comissão de inquérito estabelecida pelas Nações Unidas, no seu relatório de fevereiro de 2012 documentou tortura, captura de reféns e execuções de membros armados da oposição.

● O primeiro combate pesado na capital da Síria, Damasco, iniciou em março. Dutos foram explodidos e grandes explosões destruíram edifícios de inteligência e de segurança em áreas cristãs a 16 de março, matando pelo menos 27 pessoas. O governo sírio expôs depois que as investidas terroristas apoiadas do exterior foram responsáveis ​​por oito ataques com carros-bomba desde dezembro, matando 328 e ferindo 657. Isso recebeu pouca atenção da mídia ocidental.

● A Human Rights Watch em 20 de março acusou opositores sírios armados de "seqüestros, uso de tortura e execuções ... de membros das forças de segurança, indivíduos identificados como membros de milícias apoiadas pelo governo e indivíduos identificados como aliados do governo e apoiadores."

● No bairro Amr Baba de Homs, a oposição armada formou suas próprias leis, tribunais e esquadrões da morte, segundo a Spiegel Online. Abu Rami, um comandante da oposição em Baba Amr, entrevistado pelo Spiegel, disseque na cidade de Homs seu grupo executou entre 200 e 250 pessoas. (29 de março)

Entra a ONU

● O ex-Secretário Geral da ONU Kofi Annan foi para a Síria em março a pedido da Liga Árabe e das Nações Unidas para montar uma proposta de paz. Mas Annan e a ONU não são imparciais. Annan é um dos arquitetos da doutrina "responsabilidade de proteger", citada pelo ex-agente da CIA Giraldi como pretexto para a intervenção planejada na Síria. A ONU aprovou esta doutrina no mandato de Annan.

● Em 2004, Annan deu a aprovação da ONU para a intervenção dos EEUU, França e Canadá que depôs o presidente do Haiti Jean-Bertrand Aristide. As razões expostas por Annan foram as mesmas então das colocadas agora na Síria: impedir uma suposta "catástrofe humanitária". Annan proporcionou uma cobertura da ONU similar para a França reforçar a sua presença colonial na Costa do Marfim em 2006. Na Síria, as solicitações de Annan para um cessar-fogo do governo sírio e para uma ajuda "humanitária" externa são realmente justificavas para uma intervenção estrangeira.

● A Síria concordou com o cessar-fogo mediado por Annan a 27 de março. A oposição recusou. Enquanto os chefes de Estado ocidentais e os meios de comunicação corporativos amontoados culpam Assad de "não honrar" o cessar-fogo, o Ocidente continuou armando a oposição.

● O que o governo dos EEUU realmente pensava do cessar-fogo foi revelado por Robert Grenier, ex-diretor de contra-terrorismo do CIA Center, que convidou aqueles que querem "ajudar" a Síria "para subirem metaforicamente no ringue e sujarem-se", acrescentando: "o que tal situação não precisa é de sentimentos nobres, mas ajuda eficaz e letal." (Al Jazeera, 29 de março)

● No momento em que os imperialistas "subiram no ringue", eles continuaram a culpar Assad. Falando numa reunião do grupo anti-Assad "Amigos da Síria" em Istambul, a 01 de abril, a secretária de Estado dos EEUU, Hillary Rodham Clinton, disse que Assad tinha "manchado" o cessar-fogo. Ela disse para Damasco, unilateralmente, parar de lutar e retirar-se das áreas de pesada infiltração direitista. Ela disse que os EEUU prometeram pelo menos US $ 25 milhões em ajuda "não letal" para a oposição síria, que inclui equipamentos de comunicação por satélite.

● Em maio, os reacionários "começaram a receber significativamente mais e melhores armas... pagas pelos países do Golfo Pérsico e coordenadas ... pelos EEUU" (Washington Post, 15 de maio) "Os rebeldes sírios receberam suas primeiras armas anti-tanques de "terceira geração". Elas foram fornecidas por agências de inteligência sauditas e catarianas depois de uma mensagem secreta do presidente Barack Obama. " (Debkafile.com, 22 de maio)

O massacre de Houla

● Logo antes de uma visita agendada para a Síria por Annan, surgiram notícias de um horrível massacre de 108 pessoas em Houla a 25 de maio, que incluía famílias inteiras e até 48 crianças. Manchetes em todo o mundo culparam o governo sírio e todas as capitais ocidentais reivindicaram a intensificação das sanções e mais pressão internacional sobre Assad.

● No dia 27 de maio, os imperialistas haviam coordenado a sua "indignação internacional" e expulsaram os diplomatas sírios dos EEUU, Holanda, Austrália, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Espanha, Bulgária e Canadá.

● O Conselho de Segurança da ONU reagiu ao massacre por unanimidade - sem qualquer investigação a respeito de quem foi o responsável - condenando a Síria por supostamente usar tanques e artilharia depois de acordar um cessar-fogo. As declarações de que o governo Assad não era responsável foram ignoradas. Um olhar mais atento mostrou que era este o caso.

● Marat Musin, correspondente da ANNA News russa, estava em Houla e entrevistou testemunhas logo depois do massacre. Musin determinou que o massacre foi cometido pelo chamado Exército sírio livre e não pelas forças de Assad. O seu levantamento concluiu: "O ataque foi realizado por uma unidade de combatentes armados de Rastan, no qual mais de 700 homens armados estavam envolvidos. Eles mantiveram a cidade sob seu controle e começaram uma ação de limpeza contra famílias legalistas [pró-Assad], incluindo idosos, mulheres e crianças. Os mortos foram apresentados ... à ONU e à "comunidade internacional" como vítimas do exército sírio. "(31 de maio) O jornal conservador alemão, o Frankfurter Allgemeine Zeitung, corroborou o relato da ANNA no dia 7 de junho.

 ● Os moradores conheciam muitos dos assassinos pelo nome e identificaram-nos como elementos criminosos locais que trabalham agora para o ESL. (Síria News, 31 de maio) As forças anti-Assad então posaram como moradores e convidaram os observadores da ONU. Alguns puseram uniformes dos soldados sírios que haviam sido mortos e se apresentaram como desertores.

● Uma foto amplamente divulgada de dezenas de corpos envoltos, que a BBC apresentou primeiramente como um rescaldo de Houla, foi realmente tirada pelo fotógrafo Marco di Lauro no Iraque em março de 2003.

● O editor da BBC World News Jon Williams admitiu em seu blog a 07 de junho que não havia qualquer evidência que identificasse tanto o Exército sírio quanto as milícias alauitas como os autores do massacre de 25 de maio. O repórter sênior Alex Thomson do Canal 4 britânico disse a 7 de junho que a oposição o levou a uma linha de fogo e tentou tirá-lo de lá morto pelas forças militares sírias de modo a "ficar mal" para Assad.

● Não houve investigação independente sobre Houla até a data, ainda que numa reunião a 7 de junho, Annan e o atual secretário-geral da ONU Ban Ki-moon, voltou a fazer declarações colocando a responsabilidade em Assad pelo massacre de Houla.

● O Major Geral Robert Mood, chefe da Missão de Supervisão da ONU na Síria, suspendeu patrulhas da equipe de 300 membros a 16 de junho, alegando uma "espiral de violência em áreas rebeldes." A suspensão ocorreu logo antes da Cúpula do G-20 no México, fornecendo outra oportunidade para o imperialismo criticar Assad.

● Em declarações iniciais, Annan chamou o massacre de Houla de "ponto de inflexão". As mortes em Houla têm sido utilizadas pelos EEUU e pela OTAN para a organização de uma derrubada de Assad mais agressiva e aberta. Autoridades norte-americanas e oficiais de inteligência árabes admitiram que a CIA está no sul da Turquia canalizando armas para o ESL. Ele também está lá para "fazer novas pesquisas e recrutar pessoas." (New York Times, 21 de junho)

● Como resultado, "as milícias outrora heterogêneas da oposição síria estão se transformando numa força de combate mais eficaz com a ajuda de uma rede cada vez mais sofisticada de ativistas aqui no sul da Turquia, que tem contrabandeado recursos cruciais pela fronteira, incluindo armas, equipamentos de comunicação, hospitais de campanha e até mesmo os salários dos soldados que desertaram. A rede reflete um esforço para forjar um movimento de oposição ... que pode não somente derrotar ... Assad, mas também substituir o seu governo. "(New York Times, 26 de junho)