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Thursday, May 19, 2016

Operação Lava Jato e o desmonte de nossa indústria autônoma

Toda vez que o Brasil começa a dar seus primeiros passos para se tornar uma potência tecnológica, lá vem as oligarquias conservadoras e pró-imperialistas (isto é, empresários, latifundiários e intelectuais travestidos de lobos, mas que não passam de cordeirinhos dos EUA, assim como foram as oligarquias escravocratas cordeirinhas da colonização portuguesa e, depois, da colonização inglesa) assassinar cruelmente o nosso futuro. O assassinato precoce de nosso desenvolvimento tecnológico e da nossa soberania nacional sempre foi o pano de fundo dos golpes contra o povo brasileiro, seja de fachada institucional (o Golpe Parlamentar de 1961, contra a posse de João Goulart, democraticamente eleito) ou seja sanguinário (o Golpe Militar-Civil de 1964, contra as Reformas de Base). Agora estamos vendo nosso futuro ser massacrado novamente pelas mãos conspiratórias de “nossa” oligarquia. A pregação golpista continua a mesma de sempre: converter as lideranças políticas do progresso em corruptos e os agentes do avanço tecnológico nacional em corruptores.

As ambiciosas obras de infraestrutura (obras que não são de interesse imediato dos monopólios internacionais) em torno do PAC 1 (R$ 619 bilhões1) e PAC 2 (R$ 1,066 trilhão2), entre o primeiro e segundo mandatos do presidente Lula e o primeiro da presidenta Dilma, convocaram as principais construtoras do país para reconstruir o Brasil. Foram 1,7 trilhão de reais, entre de 2007 e 2014, em obras de infraestrutura básica em energia (Luz para Todos, grandes usinas Hidrelétricas, Gasodutos), transporte (hidrovias, ferrovias, portos, aeroportos, pontes), saneamento básico (Estações de Tratamento de Águas, Coleta e Reciclagem), habitação (Minha Casa Minha Vida).

Ao mesmo tempo, os presidentes Lula e Dilma também financiaram um processo de expansão regional por meio de acordos na UNASUL (União das Nações Sul-Americanas) e na CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos). Foram investimentos na ordem de 200 bilhões de dólares3 (R$ 700 bilhões) em obras de infraestrutura de energia e transportes. As grandes construtoras nacionais foram chamadas para iniciar também a reconstrução do continente. Com estas gigantescas obras no continente, as construtoras nacionais se tornam multinacionais, avançando em nações onde o imperialismo estadunidense boicotava, e ainda boicota, abertamente seus governos democráticos e populares. Logo, as construtoras nacionais não encontravam concorrentes estadunidenses, podendo avançar e se desenvolver sem maiores restrições.

O sonho de se globalizar de dentro para fora (e não apenas globalizar seu mercado interno ou suas commodities) enfim foi alcançado pelas construtoras, particularmente pela Odebrecht e, seguida de longe, pela Andrade Gutierrez (também conhecida como a “empreiteira de Aécio Neves”). As gigantes empreiteiras nacionais Camargo Correa (conhecida como a “empreiteira da ditadura militar”) e OAS (que nasceu a partir de subcontratos com a Odebrecht nos anos 70), que ganharam gigantescas obras na época da ditadura militar, somente se tornaram multinacionais propriamente ditas a partir do segundo governo Lula. A base da transnacionalização destas construtoras nacionais foi a aliança com o governo petista, particularmente àquela que se tornou a nossa maior multinacional, a Odebrecht.

Com esta aliança, estas empresas brasileiras consolidaram sua hegemonia na construção civil precisamente aonde não havia concorrência com as multinacionais imperialistas: América Latina, África e Oriente Médio. A transnacionalização das construtoras nacionais em aliança com o governo petista foi o que pavimentou o país ao posto de sétima (ou sexta, por um ano) economia mundial e deu musculatura para exigirmos a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, incorporando o Brasil neste seleto grupo controlado por cinco gigantescas potências militares.

Mas foi sob o comando da presidenta Dilma que a transnacionalização deu um grande salto à frente. A integração do Cone Sul e a reforma no Conselho de Segurança da ONU já representavam uma significativa liderança regional, mas foi a criação do BRICS que colocou o mundo unipolar dos EUA em xeque. O BRICS foi idealizado para formar um “Novo Banco de Desenvolvimento”, em oposição aos famigerados FMI (Fundo Monetário internacional) e Banco Mundial, e instituir uma nova moeda para as transações internacionais, em oposição ao dólar. O imperialismo estadunidense então partiu para o contra-ataque, intensificando sua ofensiva terrorista para destruir todos os países em torno do BRICS. No caso do Brasil, partiram abertamente para a ofensiva golpista, boicotando o governo petista em geral e golpeando a presidenta Dilma, em particular, com sua reeleição em 2014.

Em meio à crise energética dos EUA, foi comprovada a existência dos gigantescos poços de petróleo na Bacia de Santos, no Pré-Sal (2007). Logo após esta descoberta, o governo dos EUA anunciou, em abril de 2008, o retorno das operações da famigerada Quarta Frota. Composta por 22 navios, sendo quatro cruzadores com mísseis, quatro destróieres com mísseis, 13 fragatas com mísseis e um navio hospital, é claro que não se tratava de um cruzeiro de férias para os marines no Oceano Atlântico. Também estava claro que, além de a “Petrobrás se tornar a vanguarda em águas profundas”, como afirmou o presidente da estatal José Sérgio Gabrielli, era urgente o reforço de nossa defesa armada. Foi assim que, no final deste mesmo ano (2008), o presidente Lula implanta o programa da Estratégia Nacional de Defesa (END)4 para reestruturação e modernização da indústria de defesa nacional e reorganização das Forças Armadas.

Para protegermos a nossa principal riqueza, o Pré-Sal, já não bastava apenas possuir uma Base de Alcântara para lançar satélites dos outros, precisamos também produzir satélites 100% controlados por instituições brasileiras para garantir segurança total nas transmissões de informações e dados estratégicos ao país; já não bastava apenas construir navios plataformas, precisamos também produzir submarinos de propulsão convencional e nuclear, ultra silenciosos e sem restrição de patrulha e defesa; já não bastava apenas construir jatinhos executivos, precisamos também produzir caças de ataques supersônicos, com poder de fogo e de intervenção imediata; já não bastava somente construir veículos anfíbios de combate, precisamos também produzir misseis de médio e longo alcance teleguiados. Que empresa nacional, entre todas as outras nacionais ou multinacionais, saiu na frente?

Como parte do programa da Estratégia Nacional de Defesa, a Odebrecht criou um setor de Defesa e Tecnologia. Em 2011, fundou a Odebrecht Defesa e Tecnologia para desenvolver projetos e produtos de alta complexidade de uso militar e civil, com tecnologia genuinamente brasileira. Entre seus inovadores desafios “estava” a construção do nosso primeiro submarino com propulsão nuclear, em parceria com a francesa DCNS, além da construção de quatro submarinos convencionais. Isso por si só já seria um gigantesco passo para o país, mas a Odebrecht também “estava” iniciando a produção de armamentos inteligentes, como mísseis antirradiação de alto e curto alcance com guiagem em terra, ar e mar aberto e sistemas de alta capacidade de detecção e rastreio de alvos. Somente 3 países controlam a técnica de produção de mísseis antirradiação (“invisível” ao radar), o Brasil seria o quarto... Com a prisão “preventiva” de Marcelo Odebrecht pelo “juiz” federal Sergio Moro, como parte da Operação Lava Jato, todos estes projetos da Odebrecht começaram a ser paralisados ou mesmo cancelados!

Para a “nossa” oligarquia, a aliança forjada na última década, vitoriosa nas urnas em 2014, estava colocando o Brasil no seleto grupo das grandes potências tecnológicas e desafiando o FMI, o Banco Mundial e o dólar. Logo, para eles, o governo Dilma deveria ser ferido mortalmente! O disparo golpista contra a aliança deveria ser imediato e prolongado para se matar os 2 alvos: o governo petista e a transnacional Odebrecht. A Operação Lava Jato iniciou suficientemente municiada com as espionagens da SNA (Agência de Segurança Nacional dos EUA), conforme revelação do ex-técnico Edward Snowden da CIA (Agência Central de Espionagem dos EUA). O roteiro desenvolvido pelo juiz federal Sergio Moro, Ministério Público Federal (MPF) e Polícia Federal (PF) não deixa dúvidas sobre seu objetivo: deslegitimar o governo petista (Dilma e Lula) e criminalizar o projeto de autonomia tecnológica brasileira (Odebrecht). Os vazamentos seletivos e “análises” metralhados pela grande mídia foram desfocando os agentes por trás da aliança golpista (oligarquias conservadoras e o imperialismo estadunidense) pelo desmonte da indústria genuinamente nacional e autônoma.

Em discurso proferido logo após a sua absurda e midiática condução coercitiva para um posto da Policia Federal no aeroporto de Congonhas (cujo propósito original deste local era levá-lo como preso ao juiz Sergio Moro, em Curitiba), o ex-presidente Lula falou que se deveria investigar as perdas econômicas provocadas pela Operação Lava Jato. Marcio Pochmann, presidente da Fundação Perseu Abramo, em recente entrevista, disse que “é possível estimar que no ano de 2015, quando o IBGE afirma que houve uma redução de 3,8% no PIB, 2,5% da queda tenha sido expressão das decisões da Lava Jato”. Além disso, também afirmou que das “2,6 milhões de pessoas desempregadas no ano passado..., as decisões da força-tarefa desta operação foram responsáveis por 1,5 milhão de demissões”!

A questão que tem que ser colocada não é simplesmente as duras perdas para a economia brasileira, mas sim quantos anos retrocederemos com a vitória do golpe reacionário e institucional (jurídico, parlamentar e midiático) sustentado pela Operação Lava Jato? Quantos anos retrocederemos com a privatização do Pré-Sal? Quantos anos serão necessários novamente para o povo brasileiro retomar seus grandes projetos de construção de satélites 100% nacionais, do submarino de propulsão nuclear, de caças de ataques supersônicos e dos misseis de longo alcance teleguiados? Se a “força-tarefa” da Operação Lava Jato em aliança com as oligarquias financeiras internacionais conseguirem concretizar seu golpe fascista, quantas vidas serão sacrificadas para novamente criarmos as condições para a retomada destes projetos fundamentais para a nossa soberania?
RF

1 11º Balanço Completo do PAC – 4 anos (2007 a 2010). Publicado em “http://www.pac.gov.br/sobre-o-pac/publicacoesnacionais”


2 11º Balanço Completo do PAC 2 – 4 Anos (2011 – 2014). Publicado em “http://www.pac.gov.br/sobre-o-pac/publicacoesnacionais”


3 Balanço de Atividades 2011 do Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento – COSIPLAN. Publicado em http://iirsa.org/


4 Decreto nº 6.703, de 18 de dezembro de 2008.


Agência INVERTA

Monday, April 8, 2013

Iraque: 10 º aniversário do crime estadunidense contra a humanidade



por Sara Flounders, traduzido por Vinicius C. para o Batalha de Ideias.

Os grandes meios de comunicação nos EUA desempenham um papel importante na preparação para a guerra imperialista. Eles desempenham um papel ainda mais insidioso em reescrever a história das guerras dos EUA e obscurecendo seus propósitos.

Estão totalmente interligados com os militares dos EUA, o petróleo e as corporações financeiras. Em toda guerra, esta instituição extremamente poderosa conhecida como "quarto poder", um braço das relações públicas do domínio corporativo, justifica a pilhagem imperialista e o esmagamento de todos os dissidentes.

Reminiscências da imprensa corporativa e avaliações da presente semana do 10 º aniversário da Guerra do Iraque, que começou a 19 de março de 2003, são um lembrete austero de sua cumplicidade na guerra.

Nos vários artigos publicados há poucas menções às centenas de notícias que saturaram totalmente os meios de comunicação nos meses que antecederam o ataque do Pentágono. A cobertura da imprensa em 2003 foi completamente infundada, com as mentiras das "armas de destruição em massa" secretas iraquianas, sinistras ameaças nucleares, programas de guerra biológica, compra de urânio, laboratórios de gás nervoso e a demonização racista de Saddam Hussein como a maior ameaça para a humanidade. Tudo isso agora está encoberto e esquecido.

As armas nunca foram encontradas no Iraque, mas nenhum oficial estadunidense foi acusado de fraude. Heróis como o soldado B. Manning, no entanto, enfrentam a vida na prisão por liberar documentos expondo a extensão de alguns destes crimes premeditados.

Hoje, nas histórias populares, uma vaga menção é feita à verdadeira razão para a guerra: a disposição de impor uma mudança de regime no Iraque, a fim de garantir o controle corporativo dos EUA e o domínio dos vastos recursos de petróleo e gás da região. O Iraque era para ser um exemplo para todos os países que tentam um desenvolvimento independente de que a única opção era a completa submissão ou a destruição total.

Agora já não é sequer um debate político que a invasão dos EUA e a ocupação do Iraque foram um desastre ululante e um grande erro imperialista para os interesses estratégicos dos EUA. Apesar de toda a determinação para ocupar o Iraque com 14 bases militares permanentes, o exército de ocupação dos EUA foi forçado a se retirar face à feroz resistência nacional iraquiana.

Bush estava no convés do porta-aviões estadunidense Lincoln no fatídico maio de 2003, com uma faixa de "missão cumprida" atrás, para declarar o fim da guerra. Mas o que os EUA, inchados na sua arrogância imperialista, não previu era que a resistência tinha apenas começado.

Estrategistas norte-americanos, tão cheios de vaidade sobre suas poderosas armas, ignoraram a mensagem exibida em cartazes, outdoors e manchetes de todos os jornais do Iraque. Estava até na manchete de um jornal de língua inglesa de lá, quando este repórter estava no Iraque com uma delegação de solidariedade algumas semanas antes do "choque e pavor" caudado pelo ataque estadunidense.

O slogan muitas vezes repetido foi: "O que as selvas no Vietnã representaram em sua resistência, as cidades do Iraque serão para nós."

O governo iraquiano abriu os armazéns e distribuiu seis meses de rações alimentares para a população antes da guerra. Cada pacote tinha a frase: "Lembre-se de alimentar um lutador da resistência." Armas de pequeno calibre, explosivos e instruções simples para fazer dispositivos explosivos improvisados foram distribuídas publicamente.

Em última análise, o poder corporativo dos EUA foi derrotado no Iraque, devido à sua incapacidade de ser uma força para o progresso humano em qualquer nível. Foi incapaz de realizar uma reconstrução.

A força avassaladora das armas dos EUA foi capaz de destruir as realizações mais expressivas da soberania iraquiana de décadas passadas e inflamar velhas feridas sectárias. Mas foi incapaz de derrotar a resistência iraquiana ou até mesmo ganhar a votação de um acordo de forças em um Parlamento iraquiano que os próprios planejadores norte-americanos criaram.

A não-cobertura da imprensa estadunidense

Na cobertura do 10 º aniversário, a mesma mídia que vendeu a guerra recontou a decisão criminosa de invadir e ocupar o Iraque apenas como inteligência equivocada ou informação errada. Ao mesmo tempo em que lavam as mãos sobre as oportunidades perdidas e a falta de previsão, eles dão uma rápida saudação aos 4.448 soldados norte-americanos que morreram e os 32.221 feridos. Pelo menos 3.400 trabalhadores contratados norte-americanos morreram, um número quase não mencionado ou subnoticiado.

Mais de 1,1 milhão de soldados norte-americanos serviram no Iraque. O Conselho Nacional de Deficiência diz que até 40 por cento dos veteranos das guerras no Iraque e no Afeganistão sofrem de stress pós-traumático e lesão cerebral traumática.

A invasão do Iraque pelos EUA foi a guerra mais ampla e detalhadamente relatada na história militar. No entanto, a enormidade do crime cometido contra o povo iraquiano, as centenas de milhares de mortes silenciosas da falta de infra-estrutura médica, os milhões de refugiados, a catástrofe ambiental, os resíduos radioativos e químicos deixados para trás foram ignorados na cobertura de então e hoje são ignorados.

No início da guerra, em março de 2003, 775 repórteres e fotógrafos foram registrados e viajaram como jornalistas incorporados. O número cresceu para milhares de pessoas. Esses repórteres assinaram contratos com os militares que limitavam o que eles eram autorizados a relatar.

Por isso não deve ser nenhuma surpresa que estão completamente ausentes da cobertura a responsabilidade pela destruição calculada do Iraque, a corrupção massiva e a pilhagem sistemática, ou a política consciente de inflamar o ódio sectário e a violência como uma tática para desmoralizar a resistência.

Estatísticas não podem transmitir a perda humana. Uma em cada quatro crianças iraquianas com menos de 18 anos perderam um ou ambos os pais. Em 2007, foram 5 milhões de órfãos iraquianos, de acordo com estatísticas oficiais do governo. Em 2008, apenas 50 por cento das crianças em idade escolar primária estavam frequentando as aulas. O Iraque, que tinha a menor taxa de analfabetismo na região, foi reduzido a ter a mais alta. As mulheres sofreram as maiores perdas em educação, profissões, atendimento infantil, alimentação e em sua própria segurança na ocupação brutal.

De acordo com dados do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, existem hoje 2,7 milhões de iraquianos deslocados internamente e 2,2 milhões de refugiados, a maioria em estados vizinhos. Mais de um quarto da população do Iraque foi morta, tem alguma deficiência ou foi deslocada como refugiada devido aos anos de ocupação dos EUA. Isto não é libertação.

Falta nas muitas avaliações do 10o aniversário o contexto histórico essencial. A guerra de 2003 foi uma continuação da guerra de 1991 para destruir o Iraque como nação soberana com o controle de seus próprios recursos. Há apenas uma menção da destruição seletiva em 1991 de água potável, saneamento, esgotos, irrigação, comunicações e instalações da indústria farmacêutica, assim como a rede elétrica civil e o abastecimento de alimentos básicos. Hoje foi apagada toda e qualquer menção aos 13 anos sanções impostas ao Iraque pelos EUA / ONU de 1990 a 2003, que causaram a morte, por fome e doença, de mais de 1 milhão de iraquianos, mais da metade deles crianças.

Apesar do estrago horrendo, o fracasso das sanções dos EUA / ONU na criação de um colapso total no Iraque obrigou o poder corporativo dos EUA a optar por uma invasão militar para impor uma mudança de regime.

Segundo aniversário das guerras na Líbia e na Síria

Nas avaliações da invasão estadunidense ao Iraque, também falta mencionar que esta é uma semana do aniversário de duas outras guerras.

19 de março é o segundo aniversário da guerra dos EUA / OTAN sobre a Líbia - os sete meses de bombardeios que destruíram as cidades modernas e bonitas, escolas, hospitais e centros culturais construídos com a estrutura petrolífera nacionalizada e o gás da Líbia. A operação da OTAN assassinou o líder líbio Muamar Kadafi em 2011 e devastou todo o país. Mas ainda não conseguiu assentar uma fonte estável de lucros para os EUA.

15 de março é o segundo aniversário do esforço contínuo dos EUA / OTAN para desestabilizar e destruir totalmente uma Síria moderna e secular.

Apesar do apoio e financiamento às monarquias feudais corruptas da Arábia Saudita e Kuwait pelos EUA / OTAN, apoio diplomático, armamento dos esquadrões da morte e mercenários, e criação de refúgios e bases na Turquia, o governo sírio tem mobilizado a população e resistiu a outra mudança de regime orquestrada pelos EUA. O conflito está em um impasse. O número de mortos já passou de 70.000.

A opção Salvador: terror em massa

A mais clara evidência de que os anos de violência sectária no Iraque depois da invasão dos EUA, os assassinatos por esquadrões da morte, campanhas de terror em massa e o uso angustiante de tortura por unidades de comando foram atos deliberados treinados, sancionados e desenvolvidos no mais alto nível do comando político e militar dos EUA foi publicada na semana de 18 de março no Guardian de Londres, acompanhada de um documentário da BBC. A exposição foi baseada em 18 meses de pesquisa.

A exposição menciona nomes como o do coronel James Steele, um veterano aposentado das Forças Especiais, que foi enviado ao Iraque pelo então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, para organizar paramilitares de modo a esmagar a insurgência iraquiana. Outro assessor especial, o coronel aposentado James Coffman, trabalhou ao lado de Steele e se reportava diretamente ao general Petraeus.

Esta política dos EUA de contra-insurgência foi chamada de "opção Salvador" - um modelo terrorista de assassinatos em massa por esquadrões da morte patrocinados pelos EUA. Foi aplicada pela primeira vez em El Salvador no auge dos anos 1980 contra a resistência a uma ditadura militar, resultando em um número estimado de 75.000 mortes. Um milhão de uma população de 6 milhões tornaram-se refugiados.

A opção Salvador é o princípio central da muitas vezes elogiada estratégia de contra-insurgência do general David Petraeus no Iraque e no Afeganistão.

Pesquisadores do Guardian analisaram uma série de documentos do Wikileaks e reuniram um grande número de denúncias de tortura praticada pelas milícias treinadas e apoiadas pelos EUA no âmbito deste programa. A BBC e o Guardian atestam que os seus pedidos para que os principais membros do Comitê de Serviços Armados do Senado dos EUA, que poderia investigar as acusações, comentassem foram recusados ou ignorados.

Mas, em Samarra, uma cidade iraquiana, onde iraquianos foram torturados em uma biblioteca e foco do documentário da BBC, os moradores realizaram manifestações em massa contra o governo e planejaram criar telas grandes na praça central para exibir o filme.

"Choque e Pavor" = terror

Desde o início da preparação para a guerra, os planos dos EUA foram calculados para usar as formas mais extremas de terror contra o povo iraquiano de modo a forçar a submissão à dominação dos EUA. "Choque e pavor" é terrorismo por outro nome.

"Choque e pavor" é tecnicamente conhecido como dominação rápida. Por sua própria definição, é uma doutrina militar que usa o poder esmagador e espetaculares demonstrações de força para paralisar e destruir a vontade de lutar. Escrito por Harlan Ullman K. e James P. Wade, em 1996, a doutrina é um produto da National Defense University, desenvolvida para explorar a "tecnologia superior, o engajamento de precisão e domínio da informação" dos Estados Unidos.

Esta bem conhecida estratégia militar exige a capacidade de perturbar "os meios de comunicação, transporte, produção de alimentos, abastecimento de água e outros aspectos da infra-estrutura." De acordo com esses criminosos estrategistas militares, o objetivo é atingir um nível de choque nacional semelhante ao efeito do lançamento das armas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki.

Aproveitadores da guerra

O saque e a pilhagem do Iraque em grande escala também foram planejados desde o início. Não era um acidente, uma política equivocada ou a névoa da guerra.

O funcionário, que tinha total autoridade no Iraque imediatamente depois da destruição pelo "choque e pavor", chefe da autoridade de ocupação no Iraque, Paul Bremer III, promulgou 100 medidas que transformaram o Iraque do dia para a noite em um grande livre mercado capitalista dependente. As 100 medidas garantiram que os investidores estrangeiros fossem proprietários de 100 por cento dos ativos iraquianos, além de garantir o direito de explorar todos os lucros, realizar importações sem restrições e acordos e arrendamentos de longo prazo – de 30 a 40 anos. Na reviravolta oficial da soberania iraquiana, essas ordens coloniais chegaram para ficar.

Bilhões foram logo roubados do Iraque. De acordo com Dirk Adriaensens do Tribunal BRussells, os administradores norte-americanos, como "autoridades" da ocupação, confiscaram todos os bens e fundos iraquianos no mundo inteiro – totalizando US$ 13 bilhões. Eles apreenderam todos os fundos iraquianos nos EUA (US$ 3 bilhões). Transferiram os fundos da conta UBS iraquiana (banco suíço) para as forças estadunidenses. Eles exigiram e receberam os fundos acumulados até março de 2003 pelo programa da ONU Petróleo-por-comida (cerca de US$ 21 bilhões)

Nas primeiras semanas de ocupação, as tropas ianques se apoderaram de cerca de 6 bilhões de dólares, bem como US$ 4 bilhões do Banco Central e de outros bancos iraquianos. Eles recolheram o dinheiro em edifícios especiais do governo em Bagdá.

Para onde todos esses recursos vão? Em vez de criar uma conta no Banco Central do Iraque para depositar esses fundos, bem como os fundos de exportação de petróleo, as autoridades de ocupação criaram a conta "Fundo de Desenvolvimento para o Iraque" no American Central Bank, New York Branch, onde todas as operações financeiras são realizadas em segredo. "Faltam" cerca de US$ 40 bilhões de um fundo pós-Guerra do Golfo.

Segundo a BBC, em 10 de junho de 2008, outros US $ 23 bilhões em fundos de ajuda do Ocidente para o Iraque foram perdidos, roubados ou "não devidamente contabilizados". Abundam histórias dos milhões de dólares em notas de US$ 100 que desapareceram em patins nos aeroportos e caixas de pizza e sacos de lã cheios de dinheiro.

De acordo com a BusinessPundit.com da lista dos 25 mais cruéis aproveitadores da guerra, esses fundos roubados foram apenas o início da partilha do espólio. Grandes corporações dos EUA registraram lucros recordes. Nos anos de 2003 a 2006, os lucros e os ganhos dobraram para a Exxon / Mobil Corp e ChevronTexaco.

KBR Halliburton, Inc., que estava diretamente ligada ao vice-presidente Cheney, ludibriaram as agências governamentais no montante de US $ 17,2 bilhões em receita relacionada à guerra do Iraque só de 2003 a 2006.

O custo da guerra

O prêmio Nobel Joseph E. Stiglitz calculou o custo da guerra do Iraque, incluindo os muitos custos ocultos, em seu livro de 2008, "A guerra de três trilhões de dólares". Ele concluiu: "Assim como não existe algo como um almoço grátis, não há tal coisa como uma guerra livre. A aventura do Iraque enfraqueceu seriamente a economia dos EUA, cujos problemas agora vão muito além do desenfreado crédito hipotecário. Você não pode gastar US$ 3 trilhões - sim, US$ 3 trilhões - em uma guerra fracassada no exterior e não sentir a dor em casa".

Stiglitz lista até que um destes trilhões poderia ter sido pago para: 8 milhões de unidades habitacionais, ou 15 milhões de professores de escolas públicas, ou cuidados de saúde de 530 milhões de crianças por um ano, ou bolsas de estudo para universidades para 43 milhões de alunos. Três trilhões poderiam ter corrigido o chamado problema de Segurança Social nos EUA por meio século.

De acordo com um relatório do Christian Science Monitor, quando são incluídos o tratamento médico contínuo, veículos de substituição e outros custos, o gasto total com a guerra no Iraque é projetado em US$ 4 trilhões. (25 de outubro de 2012)

Resistência popular e movimento anti-guerra

Os meios de comunicação desempenham outro papel importante em reescrever a história. Seu objetivo é sempre fazer o possível para marginalizar e depreciar a consciência de milhões de pessoas.

Enquanto o ataque de "choque e pavor" de 19 de março de 2003 ainda hoje é descrito, é raro ver qualquer referência nos grandes meios de comunicação às manifestações verdadeiramente maciças, que atraíram milhões de pessoas para as ruas, de oposição à guerra então iminente. Calcula-se que, antes da guerra, mais de 36 milhões de pessoas em mais de 3.000 manifestações mobilizaram-se internacionalmente para se opor – nos dois meses mais frios do inverno. Isso foi algo sem precedentes.

No Iraque, apesar da força esmagadora do "choque e pavor", o uso planejado da guerra sectária e o uso em massa de esquadrões da morte – apesar da destruição de cada realização construída por gerações passadas, juntamente com a destruição de escolas e confisco de recursos - a guerra dos EUA fracassou em todos os aspectos. Apesar das condições horrendas, a resistência iraquiana expulsou a ocupação do Iraque. Esta é uma realização de grande significado para os povos em todo o mundo.

Tuesday, March 19, 2013

GALEANO: GAZA


Por Eduardo Galeano, traduzido por Vinicius C. para o Batalha de Ideias


Para justificar-se, o terrorismo de Estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe álibis.

Tudo indica que este açougue de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, acabará por multiplicá-los.

Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, tudo o que era seu. Nem sequer têm direito a eleger seus governantes. Quando votam a alguém em quem não devem votar, são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se em uma ratoeira sem saída, desde que o Hamas ganhou limpamente as eleições no ano de 2006. Algo parecido tinha ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador. Banhados em sangue, os salvadorenhos expiaram sua má conduta e desde então viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem.

São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes de Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desajeitada pontaria sobre as terras que tinham sido palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à margem da loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está negando, há anos, o direito
à existência de Palestina. Já pouca Palestina resta. Passo a passo, Israel está-a apagando
do mapa.

Os colonos invadem, e depois deles os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam o despojo, em legítima defesa. Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu Polônia para evitar que a Polônia invadisse Alemanha.

Bush invadiu Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma de suas guerras defensivas, Israel abocanhou para si outro pedaço da Palestina, e os almoços seguem. A voracidade justifica-se pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita.

Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, que debocha das leis internacionais, e é também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros.

Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está executando a matança de Gaza? O governo espanhol não pode bombardear impunemente o País Basco para acabar com ETA, nem o governo britânico pode arrasar Irlanda para liquidar a IRA. Talvez a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou esse sinal verde provém da potência mandachuva que tem em Israel o mais incondicional de seus vassalos?

O exército israelense, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe a quem mata.

Não mata por erro. Mata por horror. As vítimas civis são chamadas danos colaterais, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, da cada dez danos colaterais, três são crianças. E somam milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está ensaiando exitosamente nesta operação de limpeza étnica.

E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. A cada cem palestinos mortos,
um israelense.

Gente perigosa, adverte o outro bombardeio, a cargo dos meios de manipulação em massa, que nos convidam a achar que uma vida israelense vale tanto como cem vidas palestinas. E esses meios também nos convidam a achar que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irã foi a que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.

A chamada comunidade internacional, existe?

É algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? É algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos se põem quando fazem teatro?
Ante a tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial revela-se uma vez mais. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade.

Ante a tragédia de Gaza, os países árabes lavam as mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos.

A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama uma que outra lágrima enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caça aos judeus foi sempre um costume europeu, mas há meio século essa dívida histórica está sendo cobrada aos palestinos, que também são semitas e que nunca foram, nem são, antissemitas. Eles estão pagando, em sangue contado e sonante, uma conta alheia.

Thursday, August 23, 2012

Egito ignora os Estados Unidos



por M. K. Bhadrakumar*, traduzido por Vinicius C. para o Batalha de Ideias.


A decepção deve estar dominando em Washington. O Egito afasta-se da aliança com os EE.UU. e a amarga verdade já não se pode ocultar ou dissimular.

Washington não esperava que o “lado correto da história” se desenvolvesse desta maneira. A Primavera Árabe gerou um fruto estranho no Egito, uma pura raça, não como os híbridos da Tunísia, Líbia ou Iêmen.

Deve-se considerar o seguinte: o presidente Barack Obama foi um dos primeiros chefes de Estado que felicitou Mohammed Morsi por sua vitória eleitoral em maio. Obama rompeu o protocolo e chamou-o para cumprimentá-lo mostrando a ansiedade de Washington de desenvolver uma esplêndida relação com ele.

Em seguida, Obama escreveu uma carta a Morsi e enviou ao secretário adjunto de Estado, Williams Burns, ao Cairo para entregá-la pessoalmente. Depois de Burns, a secretária de Estado Hillary Clinton foi ao Cairo de novo para uma audiência com Morsi. Então, ocorreu a visita ao Cairo do secretário da Defesa Leon Panetta. Tudo isto no primeiro mês da presidência de Morsi.

Panetta voltou a Washington muito satisfeito porque os dirigentes militares egípcios, que têm sido os protagonistas na estratégia regional dos EE.UU. e os defensores dos interesses estadunidenses no Egito, não só se relacionavam bem com Morsi como inclusive tinham uma agenda comum.

O resto já é parte da história. Dias ou semanas depois do otimismo de Panetta, Morsi mandou sem mais os militares, dos corredores do poder político, de volta a seus quartéis. Washington não teve outra alternativa a não ser pôr boa cara ante esta situação e quase difundiu o embuste de que Morsi consultou ao governo de Obama antes de tomar medidas em relação aos militares egípcios.

No entanto, a verdade saiu à luz no final de semana. Os EE.UU. podem estar enfrentando um imenso revés em seus esforços para influenciar a presidência de Morsi. A carta que Burns levou há um mês continha aparentemente um convite de Obama para que Morsi visitasse Washington.

Em lugar de fazê-lo, Morsi viajará a China e ao Irã.

Anunciou-se no domingo no site oficial do presidente egípcio. Ao que parece, Morsi combinará as visitas a China e ao Irã. Parece que realizará uma visita de três dias à Chine na próxima segunda-feira por convite do presidente Hu Jintao e de Pequim tem a intenção de viajar a Teerã na quinta-feira para assistir à Cúpula do Movimento dos Não Alinhados.

Pequim ainda não anunciou a visita de Morsi. O jornal de propriedade governamental China Daily publicou um comentário na segunda-feira intitulado “A visita de Morsi ao Irã poderia remodelar a paisagem política”, que intencionadamente evitou toda sugestão de que o itinerário do presidente também incluiria Pequim.

No entanto, o emblemático jornal egípcio Al-Ahram informou que Morsi e Hu “têm a intenção de discutir temas cruciais enfrentados pelo mundo árabe, como a situação síria e o problema palestino. Os dois presidentes também discutirão maneiras de realçar o intercâmbio comercial entre seus respectivos países além do aumento do investimento chinês em Egito”.

Al-Ahram resumiu: “As duas visitas podem marcar mudanças na política exterior do Egito, considerando que ambos países [China e Irão] têm tensas relações com os EE.UU., do qual Egito tem sido um aliado leal, especialmente durante o regime do presidente derrubado Hosni Mubarak”.

Cão fraldiqueiro de ninguém

Decerto, o Oriente Médio dá-se conta do fato de que os estadunidenses não são bem vistos no Cairo. Sem dúvida, esta decisão leva a marca da Irmandade Muçulmana. O que se propõe?

Primeiro, os Irmãos Muçulmanos sabem que isto será muito bem recebido pelo clima público do Egito, que demanda veementemente uma nova orientação da política exterior que se desfaça do peso morto da cooperação com os EE.UU. e Israel da era Mubarak e volte à política exterior independente do país.

Segundo, Morsi não quer depender demasiadamente da “assistência” do Fundo Monetário Internacional e/ou dos abastados Estados do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), que se vê pressionado a aceitar apesar de vir associada a condições políticas.

O Fundo Monetário Internacional dita termos duros para um empréstimo de 3,2 bilhões de dólares para o Egito. O Banco Islâmico de Desenvolvimento, com sede em Jeddah, aceitou outorgar financiamento ao Egito por 2,5 bilhões de dólares. O Catar depositará dois bilhões no Banco Central do Egito a fim de aliviar a escassez de divisas estrangeiras no Egito. No ano passado, a Arábia Saudita anunciou a ajuda ao Egito por quatro bilhões de dólares em “empréstimos com juros reduzidos, depósitos e subvenções”. Tratava-se de uma intensa luta dirigida pelos EE.UU. para sobornar a alma de Egito.

É possível que Morsi veja a China como uma potencial investidora na economia egípcia porque Pequim não fixa condições à cooperação econômica e atua geralmente segundo as regras do mercado, ajustadas às políticas neoliberais que em geral serão adotadas por Morsi. O importante é que os Irmãos sabem perfeitamente que os países do CCG –Bahrain, Kuwait, Omã, Catar, Arábia Saudita – mas especialmente a Arábia Saudita, veem-nos com desagrado e inquietude, como um perigo existencial para seus regimes autoritários. A Arábia Saudita, em particular, teve uma relação problemática com a Irmandade.

O defunto príncipe herdeiro Nayef utilizou métodos brutais para reprimir as atividades da Irmandade na Arábia Saudita. O jornal do establishment saudita Asharq Al-Awasat demonstrou sua antipatia a Morsi no sábado, quando num artigo assinado, o veterano editor do jornal, Osman Mirghani, escreveu:

O golpe que Morsi deu [nos militares], que lhe permitiu tomar o poder, foi completamente imprevisto, não só para os dirigentes do CSFA [Conselho Supremo das Forças Armadas] como também para o povo egípcio em seu conjunto… Essas decisões foram semelhantes a um golpe de Estado… A Irmandade tratou de dominar a arena política desde que sequestrou a revolução e aproveitou a onda revolucionária para chegar ao governo, apesar do fato de que se uniu bem tarde a essa revolução… A Irmandade debilitou a todos os demais partidos e por isso se negou deliberadamente a cooperar ou se coordenar com eles no período de transição prévio às eleições.

O Egito está governado agora por declarações e decisões “constitucionais” emitidas por um presidente que tem muito mais poder do que teve algum dia Mubarak… Se alguém disser de Morsi… que se libertou, e à presidência, da custodia e da intervenção do exército, terá que formular a pergunta: será seguido pela libertação de Morsi da Irmandade, que parece estar presente a todas suas decisões e medidas?

Deve-se atentar que esta forte crítica apareceu um mês depois da visita de Morsi a Riad por convite do rei Abdullah e dois dias antes da cúpula extraordinária da Organização da Conferência Islâmica (OCI) em Jeddah, na qual participou Morsi.

Disse-se que enquanto se dirigia à cúpula da OCI Morsi chamou à “mudança de regime” na Síria, implicando que o Egito é um dócil seguidor da linha fixada pela Arábia Saudita, Catar e Turquia. Mas, na realidade, Morsi desconsiderou a troika ao propor uma solução à crise síria mediante a formação de um Grupo de Contato formado por Arábia Saudita, Turquia, Irã e Egito, que poderia mediar um diálogo e a reconciliação síria conducente a uma transição política pacífica numa atmosfera livre de violência.

Aperto de mãos através da Arábia

Certamente, a inclusão do Irã por parte de Morsi no Grupo de Contato proposto representou ignorar a Arábia Saudita, que promoveu a cúpula da OCI. Depois houve a linguagem corporal, que é importantíssima em conferências entre árabes. À margem da cúpula da OCI, Morsi trocou apertos de mão e beijos com o presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad e falou-lhe de maneira muito calorosa.

Teerã cumprimentou rapidamente a proposta de Morsi, o que por sua vez levou ao apreço pela Irmandade no Cairo que viu na calorosa reação de Teerã uma confirmação inconfundível de que o Egito começa a recuperar parte da influência diplomática e estratégica que teve outrora na região. Uma espécie de sociedade de admiração mútua formou-se entre Cairo e Teerã em meio aos áridos desertos da Península Arábica.

Três coisas emergiram da participação de Morsi na cúpula da OCI. Primeiro, Morsi mostrou que o Egito propõe levar a cabo uma política exterior independente dos planos ocidentais ou dos países petroleiros do Golfo. Isto é, o Egito já não seguirá docilmente seus passos nem aceitará uma posição inferior.

Segundo, o Egito não vê a Turquia como um modelo, apesar da sonora propaganda ocidental desde o aparecimento da Primavera Árabe de que o islamismo do tipo ao que se adere o atual governo dirigido por Recep Tayyip Erdogan é uma receita válida para um Oriente Médio doente. Erdogan voltou de uma visita ao Cairo no ano passado imaginando que era uma estrela do rock para os egípcios, mas ao que parece não é o que pensa Morsi.

Terceiro, a decisão de Morsi de incluir o Irã como sócio na busca da paz na Síria significou uma rejeição do enfoque ocidental e saudita-turco. À margem da cúpula da OCI, o Ministro de Relações Exteriores egípcio Mohammed Amr também se reuniu com seu homólogo iraquiano Al Akbar Salehi para urgir que o Teerã ajude a solucionar a crise síria.

Na verdade, ainda é cedo, mas a decisão de Morsi de visitar o Irã (país com o qual o Egito não tem relações diplomáticas) só pode ser vista como um ato estratégico com profundos envolvimentos para a segurança regional e a política global. Requer uma verdadeira explicação.

Por uma parte, o Irã é o primeiro país muçulmano depois da Arábia Saudita que visita Morsi no Oriente Médio. A rua árabe tomará nota de que os Irmãos Muçulmanos no Egito recusam a noção (propagada pela Arábia Saudita e pelo Ocidente) de uma “meia lua xiita” dirigida pelo Irã que propõe uma ameaça às comunidades sunitas no Oriente Médio muçulmano.

Evidentemente, o Egito propõe normalizar suas relações com o Irã, enquanto o Egito de Mubarak estava inundado de temores maniqueístas de conspirações iranianas para desestabilizá-lo. As coisas mudaram. O líder adjunto da Irmandade, Mahmud Ezzat, disse recentemente a Associated Press: “O antigo regime costumava converter a qualquer de seus rivais [de Mubarak] num fantasma. Nós [a Irmandade] não queremos fazer como Mubarak e exagerar no temor contra o Irã”.

Do ponto de vista de Teerã, isto representa um grande progresso diplomático e geopolítico num tempo difícil quando as conversas P5+1 do Irã estão num ponto morto. Dito simplesmente, as equações no Oriente Médio de repente caíram na incerteza. Pretendia-se que tudo fosse um pequeno logaritmo do “campo de Teerã (Irã, Síria, Hezbollah e Hamas)” contra o “campo estadunidense (Arábia Saudita, Israel, Turquia e Catar)”. Mas Morsi está cruzando despreocupadamente essa barreira geopolítica.

Poderia ocorrer uma grande reordenação da política regional? No mínimo, o caleidoscópio está mudando e de repente parece que as situações da Síria, Líbano ou Gaza poderiam estar carregadas de novas possibilidades. (Na verdade, Morsi deixou claro na cúpula da OCI que qualquer enfoque da crise síria não deve tirar a atenção do problema palestino, que é o tema crucial para o mundo muçulmano).

A grande pergunta é que impulsiona à Irmandade do Egito. A crença geral é que os Irmãos Muçulmanos são gente muito cautelosa e que demorarão o tempo necessário para reajustar o cálculo de poder no Cairo, para não falar da bússola da política exterior do Egito. Mas no último período de oito dias, começou a emergir uma nova imagem dos Irmãos Muçulmanos. Qual é a explicação?

Nenhuma volta à era Mubarak

Em retrospectiva, as medidas de Morsi em relação aos militares há uma semana foi um golpe preventivo. Os Irmãos Muçulmanos consideraram que sua melhor possibilidade seria aproveitar a onda de altas expectativas na opinião pública a favor de mudanças fundamentais nas políticas nacionais e que qualquer demora e desídia em fazê-lo levaria a que os militares conseguissem superioridade e a neutralizar politicamente a liderança de Morsi.

Igualmente, os Irmãos Muçulmanos desconfiam do papel dos EE.UU. e de suas verdadeiras intenções em relação à liderança de Morsi. Há que recordar que a Irmandade (e o Hamas) acusaram explicitamente o Mossad de Israel de ser responsável pelo ataque terrorista no Sinai no dia 5 de agosto.

Não está claro o que conduziu os Irmãos Muçulmanos a chegar a essa conclusão, mas o Sinai tem sido um lugar sem lei durante décadas e é inconcebível que os serviços de inteligência israelenses não tenham prestado atenção aos grupos islâmicos militantes lá presentes. Na realidade, o que verdadeiramente sucedeu a 5 de agosto segue sendo uma incógnita e é duvidoso achar que os beduínos possam organizar uma operação tão profissional.

Ademais, há outro fator irritante. O ataque terrorista no Sinai ocorreu depois das reuniões de Morsi com os dirigentes do Hamas no Cairo e sua decisão de aliviar parcialmente as restrições no cruzamento em Rafah, o que por suposto converteu num deboche o “bloqueio” de Gaza por Israel.

Seja como for, o ataque no Sinai teve lugar inclusive enquanto os EE.UU. aumentavam a pressão sobre Morsi para que ressuscitasse de modo ótimo as relações de segurança e militares da era Mubarak entre Cairo, Washington e Tel Aviv. Tanto Clinton como Panetta fizeram o possível para persuadir Morsi de recuperar o espírito da cooperação tripartite dos EE.UU.-Egito-Israel em relação ao Sinai.

No entanto, os Irmãos Muçulmanos se dariam conta de que semelhante regresso às políticas em relação a Israel da era Mubarak seria profundamente recusado pelo público egípcio –islâmicos e seculares da mesma forma – e ademais desacreditaria à Irmandade e erosionaria a credibilidade da presidência de Morsi, em suma, um suicídio político. Os Irmãos Muçulmanos também saberiam que qualquer configuração das estratégias regionais com o foco colocado no terrorismo eliminaria toda possibilidade de mudança política em relação a Gaza.

Resumindo, a decisão de Morsi de abrir uma linha para Pequim e Teerã deve ser considerada num contexto de grande profundidade. Os Irmãos Muçulmanos esperam com apreensão um plano estadunidense-israelense para desestabilizar o governo de Morsi se não se ajustar aos ditames de Washington. Por isso, procuram possibilidades de reduzir o atual nível de dependência exagerada dos EE.UU. e seus aliados do Golfo diversificando as relações externas do país e agregando cooperações contrapostas que ajudem a realçar a autonomia estratégica do país.

A próxima semana promete ser um momento definidor na política no Oriente Médio e os alinhamentos entre os árabes quando Morsi viajar a Pequim e a Teerã. Com o afastamento do Egito, as estratégias regionais dos EE.UU. estão muito equivocadas. A pergunta imediata será: o que ganharão, depois de tudo, ao conquistar Damasco com tanta violência brutal e bestialidade insensata se já se perderam o Cairo e Bagdá?

*O embaixador M. K. Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Exerceu suas funções na extinta União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait e Turquia.

Tuesday, July 24, 2012

[GEOPOLÍTICA] Baluquistão: Encruzilhada de mais uma guerra estadunidense?



por Eric Draitser, traduzido por Vinicius C. para o Batalha de Ideias.

Há uma agitação atual no Baluquistão sobre desaparecimentos forçados, sequestros, assassinatos seletivos assassinatos e terrorismo. No entanto, estas são apenas táticas de uma guerra muito mais ampla, mais complexa em termos geopolíticos em que os Estados Unidos e seus aliados ocidentais estão engajados. Aparentemente insignificante diante do cenário de todas as crises regionais e internacionais que afetam o nosso mundo, o Baluquistão é, de fato, um nexo: o ponto em que interesses estratégicos diametralmente opostos convergem.

Os Estados Unidos vê o Baluquistão, uma área que abrange o oeste do Paquistão, o leste do Irã e uma parte do sul do Afeganistão, como crucial para a manutenção de sua hegemonia no Oriente Médio e na Ásia Central e do Sul. Por outro lado, a China considera a região como necessária para sua própria evolução econômica e política numa superpotência mundial. Visto dessa forma, o Baluquistão torna-se fundamental para o desenvolvimento do poder geopolítico no século XXI.

Localização estratégica do Baluquistão

O Baluquistão está localizado em um dos lugares mais geográfica e politicamente significativos do mundo. Não só a região está situada entre três países que se tornaram centrais para a projeção política e militar do poder ocidental, mas é central também para o desenvolvimento e exportação de energia da Ásia Central, o acesso ao Oceano Índico e uma série de outros imperativos geopolíticos tanto para o Ocidente quanto para os países da SCO e os BRICS. Devido a isso, a região tem crescido exponencialmente em importância para todos os grandes poderes do mundo.
Ainda que a terra, na superfície, pareça ser inóspita, detém uma grande riqueza logo abaixo do solo. Além do que se acredita ser uma grande quantidade de gás natural e / ou petróleo, a terra sob os pés dos baluquis contém vastas quantidades de minerais para o desenvolvimento econômico. Devido a isso, o conflito que ocorre na região assume a dimensão de uma guerra de recursos, além de uma geográfica e política.
A localização do Baluquistão tem outro elemento crucial que o torna geopoliticamente necessário: ele está no cruzamento das mais importantes rotas comerciais entre o Ocidente e o Oriente. Embora, na mente do público, uma rota de comércio pareça ser coisa do passado (alguém poderia imaginar a Rota da Seda sendo percorrida por camelo), de fato, elas são essenciais para o desenvolvimento. O comércio terrestre, algo que o chinês compreende ser um pilar de sua evolução econômica e política em uma superpotência, é impossível sem um Baluquistão estável e confiável, e isso é precisamente o que os Estados Unidos e o Ocidente buscam evitar.
Esse foco nos acessos terrestres ao comércio deve sempre ser visto no contexto da energia. A insaciável sede da China por petróleo e gás natural torna o desenvolvimento de oleodutos e gasodutos na Ásia Central, Irã e em outros lugares inestimável para eles. O gasoduto Irã-Paquistão, o gasoduto Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia (TAPI) e outros projetos servem para aumentar a importância do Baluquistão, aos olhos dos chineses. Além disso, o Porto Gwadar no Paquistão, financiado pela China, é o ponto de acesso para o transporte comercial chinês para o Oceano Índico e para a África. Com tudo isso como pano de fundo, pode-se começar a ver porque o Baluquistão é tão significativo para os chineses e, inversamente, porque os Estados Unidos e seus fantoches ocidentais procuram desestabilizá-lo.

Subversão ocidental e desestabilização

As potências imperialistas ocidentais têm o evidente interesse em conter o surgimento de um Baluquistão estável. Não só porque a região é essencial para a China, trata-se também de uma parte significativa da guerra secreta travada contra o Irã e o Paquistão. Os grupos terroristas com links diretos e indiretos com as agências de inteligência ocidentais operam impunemente no Baluquistão, uma vasta área que é quase impossível de ser monitorada. O governo paquistanês não é alheio ao fato de que agências de inteligência estrangeiras estão por trás de grande parte da violência no Baluquistão, um fato que foi afirmado publicamente até pelo ex-presidente Musharraf. Com efeito, embora Islamabad saiba que publicamente não é possível afirmá-lo, está ciente de que sua sobrevivência está em reprimir os distúrbios no Baluquistão, o que, por sua vez, significa que deve realmente combater o separatismo controlado de fora.
Num artigo publicado pelo jornal catariano de língua inglesa The Peninsula, o autor citou fontes críveis alegando que "a CIA está recorrendo ao recrutamento intenso da população local como agentes (cada um deles recebendo US$500 por mês)." Além disso, sabemos que a CIA, sob a liderança do general Petraeus, tem-se utilizado de refugiados afegãos para desestabilizar o Baluquistão. O significado destas revelações não deve ser subestimado. O fato de que a CIA esteja recrutando agentes e informantes por todo o Baluquistão indica que a estratégia dos EEUU de subversão é multifacetada. Por um lado, uma rede de agentes permite a manipulação de dados e informações, enquanto, por outro, os Estados Unidos se engajam no terrorismo através de uma variedade de grupos terroristas que controla ou manipula direta ou indiretamente. Conforme relatado na revista Foreign Policy, a CIA e o Mossad competem para controlar Jundallah, um fato importante, pois revela que os imperialistas ocidentais usam a base de Jundallah no Baluquistão para travar uma guerra coberta contra o Irã, incluindo o assassinato de cientistas, atentados terroristas com bomba destinados a causar sérios danos à infraestrutura e assassinatos seletivos de minorias étnicas.
Além da Jundallah, a CIA e os seus homólogos (MI6, Mossad, e a RAW da Índia) estão envolvidos ativamente no treinamento e na manipulação de vários grupos terroristas que operam no Baluquistão. O Exército de Libertação Baluqui, liderado por Brahamdagh Bugti entre outros, tem laços de longa data com o MI6 britânico desde os primeiros dias da independência do Paquistão. Este grupo é responsável por inúmeras ações terroristas na região, todas elas dirigidas contra civis inocentes. Este, e outros grupos semelhantes, ilustra a maneira como os Estados Unidos e seus aliados usam a arma do terrorismo para criar o caos com o objetivo de desestabilizar o Baluquistão, impedindo também o desenvolvimento econômico para o povo baluqui e, consequentemente, para a China.

Sabotagem política

As táticas de subversão não se limitam ao terrorismo e espionagem no Baluquistão. Uma das dimensões mais críticas deste problema é o uso da desestabilização política através do Congresso dos EEUU. Legisladores como o representante Dana Rohrbacher (R-CA), quem pessoalmente conduziu a acusação anti-Paquistão, defendeu ativamente o "direito de autodeterminação do povo do Baluquistão". É evidente que ele, e outros diretamente interessados no assunto, apoiam o separatismo e o a destruição do Paquistão moderno. Ao defendê-lo, Rohrbacher e outros membros do Congresso agem, como sempre fizeram, como apologistas e facilitadores da estratégia imperial dos EEUU em dividir as nações, a fim de controlá-las. Rohrbacher, ele mesmo com uma longa ligação com combatentes da Al-Qaeda (ex-mujahideen), é um defensor feroz de uma forte agenda anti-Paquistão, tratando o país como uma ameaça aos Estados Unidos. Naturalmente, a única ameaça que o Paquistão realmente representa é que, no curso do desenvolvimento da China, decidiu estar do lado de desenvolvimento econômico, em vez de deixar-se perpetuamente subjugado à vontade dos Estados Unidos.
A resolução apresentada por Rohrbacher, que é presidente da Subcomissão da Câmara de Relações Exteriores para Supervisão e Investigações, solicitou aos EEUU que apoiem o separatismo baluqui e ponham fim às relações com o governo eleito democraticamente de Islamabad. Ele tem repetidamente lançado ameaças e outras provocações, as quais foram corretamente interpretadas pelo governo paquistanês como intromissão em seus assuntos internos. O objetivo dessas resoluções e provocações tem sido projetar, tanto politicamente quanto para a opinião pública, o Paquistão como Estado terrorista, o que, em virtude da lógica distorcida apresentada à população estadunidense, significa que os EEUU devem ser capazes de fazer o que quiser para eles.
Os objetivos dos imperialistas ocidentais vis-à-vis o Baluquistão têm sido, e continuam sendo, muito simples: desestabilizar a região, a fim de bloquear a China de usá-la para fazer valer seu domínio regional e continuar a promoção de seu desenvolvimento econômico. Usando as mesmas repetidas táticas de terrorismo e subversão política, eles esperam atingir esses objetivos. No entanto, diferentemente do caso da classe dominante imperialista britânica de um século atrás, os Estados Unidos precisam lidar com um Paquistão, que mantém uma forte corrente de nacionalismo, o qual rejeita a hegemonia dos Estados Unidos na região, e que tem amigos internacionalmente. Infelizmente para o povo baluqui, a classe dominante dos EEUU não aprenderam nada da história e continua a usá-lo como peões contra seu inimigo percebido em Pequim. Sem um governo forte, nacionalista em Islamabad, disposto a fazer mais do que apenas protestos formais contra as ações dos EEUU, não haverá paz no Baluquistão. Em vez disso, a situação só vai se deteriorar enquanto as oligarquias estadunidenses continuam sua busca por uma posição dominante no século 21, independentemente se o custo exigido for humano ou financeiro.