Tuesday, June 26, 2012

PCML(Br) condena Golpe no Paraguai

O Partido Comunista Marxista-Leninista (Brasil) repudia o golpe do “impeachment” cometido contra o Presidente da República do Paraguai Fernando Lugo.

 O PCML(Br) entende que o golpe no país sul-americano serve aos propósitos reacionários eleitoreiros, não somente dos partidos de direita que controlam o Congresso paraguaio - herdeiros do ditador Alfredo Stroessner, como aos interesses de controle militar da região a serviço das multinacionais do agronegócio, como a Monsanto, Cargill, UGP, etc - e sobretudo à sanha imperialista capitaneada pelos Estados Unidos e oligarquias em nosso Continente.

O golpe no Paraguai se soma à escalada geopolítica e estratégica - iniciada pelo golpe frustrado na Venezuela, pelo golpe no Haiti nas tentativas de golpes na Bolívia e Equador, em Honduras, a anexação da Colômbia – constituindo o círculo de fogo que se fecha sobre a América Latina e Caribe, isolando o Brasil e se contrapondo à tendência à união dos povos latino-americanos em um bloco de resistência ao projeto de recolonização de Nossa América por parte do imperialismo.

O PCML(Br) repudia o massacre dos camponeses paraguaios, ato covarde, cujos autores e mandantes devem ser punidos sem demora, e apresentados à Justiça, como o latifundiário Blas Riquelme, outra cria do stroessnismo, dono da fazenda ocupada pelos camponeses, onde ocorreu a matança dos policiais e camponeses, utilizada politicamente contra o Presidente Fernando Lugo, pela imprensa burguesa a serviço das oligarquias e contra o Povo.

A tese da morte por emboscada dos seis policiais das forças especiais, treinadas na Colômbia sob a supervisão da CIA, através do famigerado Plano Colômbia, sugere uma traição interna dentro da própria força de segurança, como parte de um plano golpista, visando sua utilização política na caricatura de impeachment de Lugo. Une-se à tese do golpe, o rápido reconhecimento da posse do vice-presidente Federico Franco, por parte dos Estados Unidos, a exemplo do golpe contra Chávez na Venezuela, e Zelaya em Honduras.

Que o Povo Brasileiro não se esqueça do círculo de fogo que se fecha contra a América Latina, que poderá isolar e golpear o Brasil. Pois não podemos esquecer que a ascensão da esquerda aos governos em Nossa América resulta da contra tendência à estratégia geopolítica neoliberal de hegemonia dos Estados Unidos sobre a região. Mas este processo se desenvolve em uma conjuntura resultante do período histórico dominado por ditaduras sanguinárias que reprimiram, torturaram, assassinaram o povo e organizações revolucionárias, ceifando os quadros revolucionários, de que tanto necessitam os governos atuais progressistas para avançar rumo à definitiva independência, soberania, e igualdade em seus países. Governos como o de Lugo, Correa, Chávez, Morales, Cristina, e até mesmo o de Dilma, correm sobre o fio da navalha de composições ora mais à direita, ora mais à esquerda.



Abaixo o Golpe contra o Povo Paraguaio!

Não à destituição de Fernando Lugo da Presidência da República do Paraguai!

Pelo não reconhecimento por parte do Brasil, da Unasul, e do Mercosul do governo golpista!

Viva a união dos Povos de Nossa América!

 

 

Partido Comunista Marxista Leninista(Br)

fonte: http://inverta.org/jornal/agencia/internacional/pcml-br-condena-golpe-no-paraguai

Sunday, June 24, 2012

QUEIMA O CÍRCULO DE FOGO SOBRE A AMÉRICA LATINA.

por Diego Garcia, para o Batalha de Ideias.


Em 9 de julho de 2008 um editorial do Jornal Inverta denunciava a mais recente tática dos EUA para a América Latina chamando-a de "Círculo de Fogo", em alusão à tática militar utilizada na década de 70 para isolar o Campo Socialista do Leste Europeu e derrotar a revolução socialista naqueles países.


Na contramão da ascenção da esquerda progressista na América Latina, então, observou-se, por parte do imperialismo norte-americano, uma tomada de posições muito parecida e que parecia conduzir ao mesmo caminho: cercar, isolar e conquistar.

Muitas hipóteses foram levantadas então, de porquê desejariam os ianques dominar uma região que já dominavam economicamente. A primeira resposta veio em forma de suposição de fontes de energia e subsistência: falou-se desde a necessidade da conquista da Amazônia como fonte de biomassa até o posicionamento estrtégico do Aquífero Guaraní, maior aquífero subterrâneo do mundo, localizado bem no coração da América do Sul, entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

Entre outras coisas, em 2008 consolidava-se finalmente a primeira vitória econômica (em termos capitalistas) da América Latina: a anterior substituição do comércio do eixo AL-EUA pelo eixo AL-China tornou a região muito menos vulnerável à crise estadunidense daquele ano.

Escrevera-se então, no referido editorial:

"(...)Neste contexto de desespero do imperialismo seguiu-se ao círculo de fogo sobre o leste europeu e a ex-URSS, o círculo sobre o Oriente Médio, dirigindo-se para o cerco central ao Cáspio (Cazaquistão), onde se encontram as maiores reservas inexploradas de petróleo; não se pode deixar de enxergar também o círculo de fogo que se fecha contra a Nossa América, e menos ainda o Brasil como alvo principal desta disposição estratégica dos EUA, diante da posição geopolítica ocupada pela Venezuela, Bolívia e Equador – face a revolução bolivariana – e os constantes e retumbantes anúncios de descobertas de reservas de petróleo, em vários pontos do litoral brasileiro, além das já reconhecidas reservas hídricas, terras cultiváveis (alimento ou biocombustível) e a biodiversidade da floresta amazônica, em 70% estão no país."

Os anos se passaram e as previsões pareciam se confirmar. O círculo de fogo traçado sobre o Oriente Médio, por exemplo, queima já há mais de um ano, e ainda não dá sinais de esgotamento. Começamos a perceber as faíscas dos primeiros testes explosivos na terceira parte da tática imperialista: a América Latina.

Não muito tempo depois, em 2009, Honduras tranformava-se no tubo de ensaio da próxima invenção estadunidense: o golpe de estado institucional, onde o poder legislativo, partindo de um acordo de cavalheiros, destitui rapidamente o presidente eleito e obtém imediatamente a aprovação de pesos-pesados da geopolítica mundial, como os próprios Estados Unidos, a Alemanha e Israel, entre outros.
Em 2010 e 2011, duas tentivas frustradas, porém com características muito similares: Bolívia e Equador, quando Rafael Correa foi preso no hospital militar onde recebia tratamento e onde todos os grandes meios de comunicação apressaram-se em qualificar o mercenário levante policial de "insurreição popular".

Os Estados Unidos parecem estar buscando os "elos mais fraco" da corrente, lugares com presidentes em dificuldades com a oposição, para mais uma vez exercer seu domínio sobre a região. Como para acender uma fogueira necessita-se de um graveto mais seco. As contudentes respostas dadas pelos povos da Bolívia e do Equador fizeram-os recuar por um instante, mas o Paraguai parecia encaixar-se perfeitamente na definição desejada.

Em 23 de março de 2009, lemos num telegrama aberto pelo WikiLeaks, enviado pelo Embaixador dos EUA em Assunção, Michael J. Fitzpatrick, ao Departamento de Estado de sua nação:

“Rumores indicam que o general Lino Oviedo e o ex-presidente Nicanor Duarte estão trabalhando juntos para assumir o poder por meio de instrumentos (predominantemente) legais que deverão afetar o presidente Lugo nos próximos meses. O objetivo: capitalizar sobre qualquer tropeço de Lugo para iniciar o processo político no Congresso, impedir Lugo e assegurar sua supremacia política (...) A revolta relacionada a um programa de subsídios para agricultores por meio de ONGs foi considerada um pretexto para o impeachment antes que Lugo abandonasse o programa. Para um presidente que enfrenta muitos desafios – disputas políticas internas, corrupção e a percepção de que seu estilo de liderança é ineficiente – Lugo deve se preocupar para não cometer um erro, que seria seu último.”

E realmente: o último "erro" cometido por Lugo parece não ter sido provocado por ele. Uma semana antes, um conflito entre agriculltores e camponeses sem-terra tranformou-se num massacre, com um saldo de mortos de 6 policiais e 15 camponeses, e forneceu à opoosição ruralista um prato cheio para conduzir o "golpe de misericórdia" que todos assistimos anteontem.

Hoje, chegam notícias de tentativas de desestabilizar mais uma vez o governo de Evo Morales, na Bolívia, mais uma vez, por meio da Polícia Militar.

Um plano de desestabilizção continental parece requerer uma resposta mobilizadora continental por parte dos povos.

Para ler a íntegra do editorial "Um Círculo de Fogo sobre a América Latina".
                                                         e "O Círculo de Fogo se fecha sobre a América Latina".

Friday, June 22, 2012

DECLARAÇÃO PÚBLICA DAS FARC-EP.

 

FORÇAS ARMADAS REVOLUCIONÁRIAS DA COLÔMBIA-EXÉRCITO DO POVO (FARC-EP) 

Declaração pública 

Acerca da paz e da solução política ao conflito interno Juan Manuel Santos, em uma nova mostra de desespero, expressou ante o país no passado 11 de junho, na Escola Militar José María Córdoba, que se as guerrilhas estávamos falando de paz era graças à contundência das Forças Armadas. E acrescentou outra manifestação que diz muito de seu compromisso com a reconciliação e a paz democrática: só se produzirá a possibilidade de diálogos quando se tenha a segurança de que estes se realizarão “sob nossas condições e nosso domínio".

Tão disparatada interpretação da realidade põe a nu a concepção que inspira o discurso oficial. A via pacífica, democrática, dialogada, para solucionar o gravísimo conflito que assola a Colômbia tem sido bandeira das FARC desde seu nascimento. Levantou-a o movimento agrário de Marquetália ao conhecer-se em1962 a projetada agressão oficial. A guerra, a repressão violenta da organização popular e da oposição política, têm sido o histórico mecanismo de dominação da oligarquía colombiana e de seu amo imperialista.

A intolerância do regime corresponde-se com os interesses hegemônicos do grande capital multinacional, expressos para nosso continente desde o chamado Consenso de Washington. Livre comércio, privatizações, flexibilização trabalhista, abertura total ao investimento estrangeiro direto, isto é, a mais pura ortodoxia neoliberal no campo da economia, requer para sua imposição a absoluta dominação ideológica e cultural no campo da política.

O extraordinário esforço de Santos por entregar em lotes o território nacional às corporaciones mineiras e agroindustriais, seu desprezo pelas condições de vida das comunidades e as condições trabalhistas da mão de obra colombiana, seus reiterados privilégios ao grande capital em desrespeito ao meio ambiente e à produção nacional têm sido convertidos em dogmas sagrados. A ninguém se permite pô-los em dúvida ou os discutí-los. Trata-se nem mais nem menos que dos direitos do capital, bem mais importantes que os direitos da sociedade, os direitos humanos ou qualquer outra categoria de direitos.

Se até hoje, apesar dos sucessivos espaços conquistados pela luta popular para falar de paz nos últimos 30 anos de história, tem sido impossível chegar a um acordo de solução dialogada, tem sido precisamente pela negação das classes dominantes em admitir a mínima variante em seus projetos de dominação econômica e política. Isso volta a se pôr a nu com o atual governo.

Uma das vítimas do Terrorismo de Estado colombiano, uma mulher assassinada no bairro Policarpa no município de Apartado só por ser militante da União Patriótica, movimento político fundado em 1985 como resultado do acordo de Cessar Fogo entre o governo de Belisario Betancourt e as FARC-EP. Mas o estado cometeu a um genocídio político contra a UP, assassinando quase 5.000 de suas melhores quadros.

O que o regime pretende às custas das FARC e dos direitos da imensa maioria de compatriotas é relegitimar ante o concerto mundial seu modelo terrorista de Estado. Apagar de um a tacada a horrível e longa noite de crimes e horror mediante a qual o grande capital e os latifundiários, representados nos poderes públicos, têm acumulado fortunas e propriedades para adiantar seus gigantescos projetos de enriquecimento. Por isso se escuda hipocritamente em uma suposta intervenção da justiça internacional na contramão dos alçados.

Não são os guerrilheiros colombianos quem devem responder pelas práticas atrozes e genocidas que o Estado colombiano, por mão de suas forças armadas oficiais e paramilitares, sob a orientação das agências de inteligência norte-americanas e do Pentágono, se encarregou de praticar de modo sistemático contra sua população durante muitas décadas.

Não vai ser à custa de acusações infames e gratuitas contra a luta popular, que os gorilas e monstros que têm ensanguentado e semeado a Colômbia de tumbas vão salvar sua responsabilidade, como de modo cínico se consagra no chamado marco legal para a paz. O descaro do Congresso que o expede se reforça com a vergonhosa reforma judicial recém aprovada nas instâncias do governo.

A retórica de Santos põe a cada dia mais ao nu seu verdadeiro conteúdo. O único acordo de paz que espera é um contrato de adesão, no que uma guerrilha arrependida e chorosa se renda de joelhos ante o grande capital, agradecido de ter sido perdoada como o filho pródigo. Um ícone econômico, militar, ideológico, político e cultural para vender material mentiroso sobre sua dominación de classe ante a sociedade inteira, o triunfo hegemônico do capitalismo selvagem.

Tão elitista e soberba é sua atitude oligárquica, que pretende centrar o debate em se o Comandante das FARC pode ser ou não congressista, como se se tratasse de que a luta do povo colombiano e a insurgencia apontasse mal a uma simples reinsersão em seu podre regime político.

Agora se tenta pôr ao senhor Uribe a desempenhar o papel que em seu tempo jogara o senador Álvaro Gómez Hurtado, como uma espécie de símbolo da ultradireta, que deve ser manejado com cuidado e comprazer, quando não estivesse de acordo com ele em tudo. O Partido Liberal compartilhava o poder com o filho de Laureano, tal e como faz Santos com seu publicitado rival hoje. O povo colombiano aprende da história, a oligarquía parece que não, e faz questão de repetí-la neciamente.

Mais claro não podemos falar. A solução política ao conflito colombiano é parte inseparável de nosso acervo ideológico e político, não é o produto de nenhuma pressão militar.

As FARC-EP somos povo colombiano em armas, seguimos combatendo e seguiremos combatendo até que desapareçam as causas que deram origem e seguem alimentando o conflito colombiano. Nossa vontade de paz se demarca nesse critério elementar. O regime político, o manejo econômico e social do país requerem profundas reformas que devem nascer do debate aberto e democrático com todas as forças do país. Não entendemos por que se Santos deseja tanto a paz, tem tanto temor a isso.

Agora fala de drones e outras loucuras, como se o que a Colômbia requeresse fossem mais mortes e derroche. O que a nação colombiana está reclamando a gritos em ruas e praças é que se abram as portas do diálogo e da reconciliação, que se lhe dê a real oportunidade e o direito a falar, a expor, a se mobilizar e decidir a respeito do futuro do país.

SECRETARIADO DO ESTADO MAIOR CENTRAL DAS FARC-EP
Montanhas da Colômbia, 22 de junho de 2011

"Vatileaks" revela que o Vaticano não é nada angelical

por Emilio Marin,
traduzido por
Vinicius C. para o Batalha de Ideias

O Vaticano é um estado religioso, mas nada angelical. As revelações de documentação interna, um novo livro, renúncias e detenções no círculo íntimo de Bento XVI põem-no em destaque outra vez.

Joseph Ratzinger, o ex-cardeal alemão ungido Papa Bento XVI em 2005, estaria chegando ao final de seu reinado sobre uma grei católica de 1,5 bilhão de pessoas. Não é só pela idade -85 anos-, um fator que também não o ajuda, senão pela quantidade de denúncias que estão caindo sobre ele. Não há outro modo de interpretação a não ser avaliá-las como expressão de lutas intestinas entre bispos que começam a brigar pela sucessão do idoso pontífice.

Paradoxalmente, uma das maiores satisfações do último período foi proporcionada por um país socialista, Cuba, onde esteve no final de março. Missas em Santiago de Cuba e na Praça da Revolução em Havana, permitiram-lhe orar diante de cerca de 500.000 pessoas que o escutaram com reverencial silêncio. Um afeto similar, nascido do respeito e da diplomacia, não dos acordos ideológicos, recebeu das autoridades. Fidel Castro -retirado das funções de governo- solicitou uma reunião privativa e teve palavras amistosas para com ele.

Mas fora dessa viagem e desses momentos tão favoráveis, o resto do decorrido de 2012 não tem sido positivo para o Papa. Não se pode dizer que as coisas fossem desconhecidas ou que se escancararam de improviso em maio. Desde janeiro, vinham-se conhecendo informações saídas das entranhas do Vaticano e que adiantavam situações desagradáveis para essa autoridade.

Poderia ser dito que em maio se precipitaram vários fatos batizados como "Vatileaks", parafraseando os escândalos a nível mundial desatados em 2010 com milhares de cabos secretos revelados pelo site Wikileaks. Estes danificaram severamente a reputação, por si já baixa, do Departamento de Estado norte-americano.

O primeiro escândalo estava relacionado com o Banco Vaticano, o IOR (Instituto de Ordem Religiosa), cujo presidente, Ettore Gotti Tedeschi, foi despedido por decisão unânime do diretório. Nessa cúpula, manejada pelo Vaticano, há "especialistas externos" da Alemanha, Espanha, Estados Unidos e Itália. As aspas realçam a condição de banqueiros destes diretores, possivelmente de missa diária, mas de condição moral discutível, quanto menos.

Desde setembro de 2010 a promotoria de Roma mantinha Tedeschi sob investigação por possível lavagem de dinheiro e giros duvidosos de 20 milhões de euros à JP Morgan de Frankfurt, Alemanha, e à Banca do Fucino. O outro pesquisado pela justiça é o diretor geral do IOR, Paolo Cipriani.

O IOR tem triste fama porque já em 1982 esteve envolvido com a quebra do Banco Ambrosiano, cujo presidente Roberto Calvi apareceu enforcado embaixo de uma ponte londrina. O Vaticano teve que pôr 241 milhões de dólares para compensar os prejudicados.

Depois de várias reordenações do IOR, em 2009 chegou a sua presidência Tedeschi, da Opus Dei, posto por Bento XVI para seu "saneamento". A julgar por sua demissão e a investigação judicial, as coisas ali são tão opacas como eram as negociatas de trinta anos atrás.

 

Corrupção e algo mais

 

Não são inimigos ateus da Igreja os que denunciaram a revivência da corrupção nesta nova rodada. No ano passado o secretário Geral do Governatorato da Cidade do Vaticano, Carlo María Vigani, denunciou ante o Papa a corrupção em sua administração, sobretudo em licitações arranjadas com empresários amigos. Vigani foi raleado e "promovido" a núncio nos EE UU, bem longe de Roma, virtualmente exilado.

A fins de janeiro deste ano suas duas cartas de então a Bento e ao "chanceler", secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone foram difundidas pelo canal de televisão A 7.

Bertone pode querer tirar a patente de servidor público honesto ao impulsionar a demissão de Tedeschi do IOR. Mas na imprensa italiana publicaram-se artigos assegurando que o acusado quis dar uma administração mais transparente ao banco vaticano e por isso teve colisões com aquele "chanceler". Mais ainda, asseguram que quando a justiça romana pôs o banco sob a lupa, Tedeschi decidiu informar e colaborar com a promotoria, o que levou a um maior distanciamento com Bertone.

O IOR está sob a lupa das autoridades bancárias europeias e a Comissão Europeia que em julho deverão expedir se aquele figurará ou não na lista de entidades que cumprem com as normas de transparência bancária. Como estão hoje as coisas, seria um milagre que consiga essa qualificação.

Corroborando que tinha em circulação muita e boa informação reservada ou secreta do Vaticano, em meados de maio se publicou o livro "Sua Santidade. As cartas secretas de Bento XVI", do jornalista Gianluigi Nuzzi.

No material incluía-se temas de debate do Papa com a chanceler alemã Angela Merkel e o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, o pedido do ETA de poder tramitar por intermédio do Vaticano sua proposição de desarmamento, as cartas referidas a’"os legionários de Cristo" e os casos de pederastia e negociatas do fundador dessa ordem, o mexicano Marcial Maciel.

As setas de Nuzzi acertaram na mosca. E o afetado, Bento XVI, decidiu criar uma comissão para pesquisar de onde tinha saído tanto dado interno. Ficou conformado pelo cardeal Julian Herranz (Opus Dei), o cardeal eslovaco Jozef Tomko, ex-prefeito da Congregação para a Propagação da Fé, e pelo arcebispo de Palermo, Salvatore De Giorgi.

Essa troika apontou Paolo Gabriele, mordomo do Papa, cuja casa na cidade do Vaticano foi invadida pelos gendarmes e ele mesmo preso, no dia seguinte da demissão de Tedeschi. Segundo o diretor de imprensa do Vaticano, Federico Lombardi, Gabriele foi detido porque em seu domicílio foi encontrado material abundante probatório do "furto" de informação e papéis do Pontífice. Por esse "crime" contra o Estado alguns meios disseram que lhe poderia corresponder uma pena de até 30 anos de prisão. Um pouco exagerada a punição. Pensar que na Argentina ao brigadeiro genocida Orlando R. Agosti, golpista da primeira Junta Militar de 1976, deram só 4 anos e 8 meses de prisão...

 

Uma salsa?

 

Talvez "Paoletto", o mordomo, seja culpado ou não, isso o dirá a justiça, lástima que não a civil ou comum dos italianos, senão a correspondente a muros dentro do Vaticano. Assim poderia resultar que este é juiz e parte interessada.

É difícil achar que todo esse roubo e vazamento de informações reservadas do Papa tenha sido obra de uma só pessoa. Mais bem lógico é pensar num grupo. E não parece que o motivo de sua atuação tenha sido lucro ou motivos financeiros senão outros mais bem políticos. Em linhas gerais o que fica em pior situação é o secretário de Estado, Bertone, como número 2 do Vaticano. É evidente que o próprio pontífice sai salpicado pelas revelações, mas como está chegando o final de seu papado, o mais prejudicado pelas filtrações parece ser seu atual mão direita e possível aspirante à sucessão.

Se o mordomo resulta ser uma "salsa", sua detenção e julgamento poderiam estar ocultando a luta dura pelo poder no interior do Vaticano, uma disputa que é atual e que também se livraria pensando num futuro, quando Ratzinger já não esteja entre os vivos.

Essa hipótese tem sua razão de ser e tanto com maior empenho o porta-voz de imprensa Federico Lombardi empenha-se em negá-la. "Não há nenhum cardeal, nem italiano nem de outro país, que esteja sendo pesquisado como alguns escreveram", disse Lombardi. Então deveria havê-los...

As finanças vaticanas pouco transparentes têm sido motivo de várias investigações e publicações críticas. O livro mencionado de Gianluigi Nuzzi é o segundo de sua autoria, porque já tinha publicado outro, "Vaticano Sociedade Anônima", sobre as questionadas finanças do purpurado.

Um jornalista argentino especializado em assuntos da Igreja, Washington Uranga, opinou sobre o escândalo no Página/12 ("O diabo entrou sem golpear", 29/5). Ali recorda que "em 1982, o teólogo brasileiro Leonardo Boff, um dos iniciadores da teologia latino-americana da libertação, publicou um livro titulado Igreja, carisma e poder". À raiz dessa opinião, Ratzinger condenou-o ao silêncio e depois Boff pendurou os hábitos.

Seu esboço não deixa bem o Vaticano: "desmoronamento que não se reduz ao questionado poder central do catolicismo, senão que se estende ao longo e na largura do mundo onde a cada dia surgem novas evidências de casos de corrupção como os ocorridos com os Legionários de Cristo, os casos de pedofilia, os escândalos sexuais, as fraudes e as cumplicidades em violações aos direitos humanos, como acaba de ratificar em nosso país".

Uranga concluiu: "a panela segue-se destapando no Vaticano... e cheira a podre". Os narizes de boa parte do mundo, católicos ou não, cheiram o mesmo.

 

o original encontra-se em:

http://www.laarena.com.ar/opinion-_vatileaks__desnuda_que_el_vaticano_no_es_nada_angelical-76265-111.html

 

Monday, June 18, 2012

Venezuela: às vésperas do golpe, um funcionário da Embaixada dos EEUU recrutava franco-atiradores


por Jean Guy Allard
traduzido por Vinicius C. para o Batalha de Ideias

Semanas antes do golpe de Estado contra o Presidente Hugo Chávez, Marcelo Sanabria, então Chefe de Segurança da Embaixada dos Estados Unidos na Venezuela, dedicou-se a procurar franco-atiradores a quem propôs, em troca de grandes somas de dinheiro, realizar “ações” e que depois participaram na matança da ponte Llaguno.
O funcionário da Embaixada tornou-se “célebre” quando custodiou pessoalmente Pedro Carmona, no dia 12 de abril, com uma arma de tamanho descomunal – um lança-granadas – em fotos tiradas no Forte Tiuna e difundidas na imprensa. 
A segurança da Embaixada encontrava-se sob contrato com a firma Wackenhut Venezolana C.A. filial da Wackenhut Corporation, uma empresa de segurança e de investigação dos EEUU, cujos escritórios centrais estão localizadas em Palm Beach Gardens, Flórida.
Tudo confirma que é uma fachada da CIA.
Sanabria mantinha então relações pessoais estreitas com Isaac Pérez Recao, dono da agência de vigilância "Serenos Victoria" e cujo domicílio, neste mesmo período, serviu de quartel-geral para o recrutamento de oficiais que recebiam lá mesmo grandes quantidades de dinheiro em troca de sua traição. 
Sanabria andou durante o 11 de abril ao lado do Comissário Iván Simonovis, condenado depois a 30 anos de prisão, pena máxima na Venezuela, por graves delitos cometidos durante o golpe de Estado, entre os quais o caso da ponte Llaguno, massacre que cobrou 19 vítimas fatais.
Pérez Recao organizou um grupo armado dirigido pelo contra-almirante traidor Carlos Molina Tamayo, depois a cargo da Casa Militar do efêmero Carmona. 

Num sótão da casa deste multimilionário, comerciante de armas em escala mundial, a Direção da Inteligência Militar encontrou um enorme arsenal militar. 
Uma vez fracassado o golpe enquanto Sanabria ficava no país, Recao fugiu num helicóptero para Aruba apoiado por Richard Lacle, o mesmo que deu apoio ao terrorista Luis Posada Carriles quando escapou das prisões venezuelanas.
Marcelo Sanabria, que se diz “especialista em matéria de segurança” radica em Apure.
A mesma fonte confirma que o Governo dos EEUU financia e assessora à oposição e seu candidato nas eleições presidenciais Henrique Capriles Radonski quem foi um participante ativo do Golpe de Estado de 2002 e com quem já mantinha estreitas relações.
Esta última informação foi confirmada na semana passada por James Petras, acadêmico e analista político dos Estados Unidos quem afirmou por sua vez que o Governo estadunidense está planejando derrubar o presidente Chávez, diante da impossibilidade da vitória de Capriles Radonski nas eleições do próximo dia 7 de outubro.

o original encontra-se em http://www.rebelion.org/noticia.php?id=149354

Thursday, June 14, 2012

Drones: o assassinato seletivo é apenas uma parte do problema

 

traduzido por Vinicius C. para o Batalha de Ideias.

O uso estadunidense de drones para matar um alvo recebeu corretamente uma atenção considerável da mídia durante a semana passada. Desde o início de 2012, os Estados Unidos intensificaram o seu programa de assassinatos por drones no Iêmen, enquanto continuam a lançar ataques aéreos no Paquistão apesar dos repetidos apelos das autoridades paquistanesas para que parem. Listas negras e execução extrajudicial de suspeitos, uma vez vistas como completamente inaceitáveis pela comunidade global (e para a grande maioria, ainda o é), agora parecem ter se tornado quase uma questão de rotina para os Estados Unidos e seu presidente.

Jornalistas, analistas - e agora igrejas – têm, com razão, investigado e criticado este uso particular de aviões, e tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido obstáculos legais estão em andamento para evitar mais ataques e para revelar mais detalhes sobre o processo.

Mas é importante lembrar que o assassinato seletivo não é o único problema com os aviões não-tripulados.

No início desta semana eu participei de uma discussão online sobre o uso de drones organizada pelo think tank canadense CIC. O autor e especialista em drones Peter Singer e a professora de Ética e Direito em Oxford, Jennifer Walsh, argumentaram que não havia nenhum problema particular com os drones por si sós. Eles argumentavam (como a maioria dos analistas) que não é o desenvolvimento e a utilização da tecnologia armada remota que é o problema, mas sim o fato de estar sendo empregada fora dos conflitos armados 'oficiais' para a realização de assassinatos seletivos. Só para ficar muito claro, o uso de drones para realizar assassinatos distantes de qualquer campo de batalha é um problema muito sério que deve ser investigado e impedido.

Mas não é só o fato de que os drones têm permitido a expansão do assassinato seletivo. O problema com drones vai mais fundo do que isso.

Simplificando, a tecnologia não-tripulada armada e o conceito de "guerra remota" alteram o saldo das opções disponíveis para os nossos líderes políticos e militares em favor de uma resposta militar. Os drones estão fazendo o custo político de uma intervenção militar muito inferior ao que costumava ser anteriormente.

Antes do advento dos drones (e particularmente desde a guerra do Vietnã), a antipatia pública em arriscar vidas em guerras no exterior fez com que o equilíbrio das opções disponíveis para os nossos líderes pesasse mais para o lado da intervenção política e não militar (com exceções notáveis, é claro). Agora, no entanto, as escalas mudaram na direção oposta e os drones permitem que os nossos dirigentes políticos intervenham militarmente no exterior com o lançamento de ataques remotos a grandes distâncias sem risco para suas próprias forças. Embora alguns argumentem que foi possível lançar ataques a grandes distâncias por muitos anos usando mísseis de cruzeiro, por exemplo, é a capacidade do drone em pairar e sobrevoar cidades e recintos por muitas horas e dias em vez de um "tiro one-off" de um míssil de cruzeiro que faz a diferença crucial.

Embora estejamos ainda no começo da era das guerras com drones, o fato de que os Estados Unidos usaram aviões não tripulados para lançar ataques em seis países diferentes em 2011 - Iraque, Afeganistão, Paquistão, Iêmen, Somália e Líbia - mostra como é muito mais fácil agora realizar intervenções militares.

Acimo disto, há a preocupação de que os drones também podem tornar muito mais fácil lançar ataques dentro de cenários particulares de guerra.

De acordo com o Bureau de Jornalismo Investigativo (TBIJ), houve cerca de 330 ataques norte-americanos com drones no Paquistão e cerca de 40 ataques aéreos no Iêmen. Embora os conflitos no Afeganistão e Iraque sejam as primeiras guerras 'oficiais' nas quais drones armados foram utilizados de uma forma sustentada e abrangente, não há ainda nenhuma análise pública do impacto de aviões não-tripulados nesses conflitos. Dado que os Estados Unidos têm dez vezes a quantidade britânica de cinco drones Reaper armados no Afeganistão - e os drones da Grã-Bretanha lançaram mais de 250 ataques aéreos - é bem provável que tenham havido mais de 2.000 ataques aéreos no Afeganistão (embora esta seja apenas uma estimativa).

Devido ao sigilo que envolve o uso de drones armados, é difícil, nesta etapa, dizer definitivamente que a natureza "livre de riscos" dos drones está realmente aumentando a freqüência dos ataques. No entanto, um relatório militar oficial dos Estados Unidos num ataque em fevereiro de 2010, que resultou na morte de civis afegãos, atestou que os pilotos de drones em Creech "tiveram uma propensão / viés para operações cinéticas".

Sabemos que os drones estão sobrevoando determinadas áreas, cidades e regiões por horas e dias à procura de "alvos de oportunidade" e isso é motivo de séria preocupação. Laura Arbour, ex-comissária das Nações Unidas pelos Direitos Humanos e, atualmente, chefe do International Crisis Group, alertou ao crescente uso de aviões não-tripulados recentemente. "O mais grave é o segredo que envolve essas operações, somado ao fato de que eles são mais utilizados isolados, em áreas de difícil acesso, o que torna praticamente impossível determinar se eles são usados ​​em conformidade com as leis da guerra".

Embora seja certo e importante que exista uma crescente condenação ao uso de drones para assassinato seletivo, precisamos também desafiar a crescente utilização da tecnologia de armas não-tripuladas em si. Sem dúvida alguém responderá com o clichê de que "armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas". E como a maioria dos clichês, há um elemento triste de verdade nisso. E os outros vão dizer também que os drones não são intrinsecamente maus, como bombas de fragmentação ou minas anti-pessoais, por eles poderem ser usados ​​de outras formas que não para matar. Porém, os drones armados, por sua natureza e pelo modo como são projetados para serem usados, tornam simplesmente o mundo um lugar mais perigoso.

 

o original está em http://dronewarsuk.wordpress.com/

Sunday, June 3, 2012

[DesarticulandoIDEIAS] Bancos e multinacionais “solidárias”, a caridade laica das grandes ONGs

 

Manuel G. Ayestarán

Terça-feira 29 de maio de 2012, pela Revista Pueblos

traduzido por Vinicius C. para o Batalha de Ideias.


Entidades financeiras como o Banco Santander, BBVA, Banco Popular, A Caixa, e multinacionais como Repsol, Vodafone ou Accenture são apresentadas como empresas solidárias e comprometidas contra a pobreza por diversas ONGs como Médicos sem Fronteiras, Ação Contra a Fome, Intermon Oxfam, Plan España, Save the Children, etc. É paradoxal que organizações supostamente dedicadas a lutar contra a miséria e a injustiça social limpem, ao mesmo tempo, a imagem dos agentes conservadores da ordem mundial existente na atualidade. [1]


Meios de comunicação e grandes ONGs


Nas últimas décadas, os grandes meios de comunicação têm apresentado estas organizações como os principais agentes na luta contra o mal da miséria que assola o Terceiro Mundo. Graças a este trabalho de prestígio, a ajuda de emergência e a cooperação para o desenvolvimento são conceitos que gozam de grande popularidade na sociedade ocidental contemporânea. A primeira faz referência a uma ajuda pontual em curto prazo, por parte da ONG a um coletivo numa situação crítica determinada, que em nenhum caso pretende provocar uma mudança em sua forma de subsistência ou organização, unicamente pretende “preservar a vida e aliviar o sofrimento de outros seres humanos”. [2] O segundo faz referência a uma ajuda em longo prazo que pretende melhorar as condições de vida nas comunidades onde se leva a cabo, de maneira que estas acabem sendo autossuficientes.

O termo Terceiro Mundo, cunhado pelo economista e sociólogo Alfred Sauvy, tão empregado no discurso mediático e científico ocidental, é, primeiramente, um termo pouco prático para a conscientização social, por levar associada uma conotação de distância das nações pobres em relação às ricas, tanto no sentido físico do termo como no simbólico. No entanto, as realidades de ambos lugares se encontram estreitamente interconectadas, até o ponto de que a existência e o desenvolvimento histórico das últimas têm marcado e marcam profundamente a existência e a forma de vida existente nas primeiras. [3]

Além de fomentar esta percepção de afastamento no público, outro ponto de conexão entre o establishment mediático e as ONGs é a forma como representam os países desfavorecidos e seus habitantes em suas mensagens. Estes costumam ser apresentados como lugares hostis habitados por sociedades atrasadas, vítimas de sua própria realidade política, social e natural, incapazes de subsistir de forma independente e, portanto, carentes da ajuda e do socorro das sociedades mais adiantadas, aspecto mediante o qual se justifica a constante intervenção das nações ricas em sua economia e organização política.


Ideologia


A imagem de marca gerada por este tipo de ONGs costuma caracterizar-se principalmente por seu caráter apartidário, neutro e independente. Apresentam-se a si mesmas como organizações que salvam vidas “apoliticamente”. No entanto, esta concepção de seu trabalho tem numerosas lacunas e é muito danosa em longo prazo para a eliminação da miséria e das grandes diferenças sociais na humanidade.

O caráter apolítico destas organizações vem definido pelo fato de nenhuma ter afinidade declarada com nenhuma ideologia política nem com nenhum governo, no entanto, como se mostrou previamente, sim a têm com entidades de forte perfil neoliberal que apoiam e se beneficiam das políticas que, nesta linha ideológica, forçam a impulsionar organizações internacionais como o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional aos países pobres, tais como acordos de livre comércio ou medidas de legislação ambiental mais permissivas que lhes permitam reduzir os custos em suas atividades econômicas. Isto é, mantêm relação com empresas que exploram trabalhadores e saqueiam países legalmente, graças ao marco jurídico criado pelo establishment político internacional, de forte tendência direitista.

Na seção “empresas” da website de qualquer ONG pode ser visto a concepção que estas têm da empresa privada como agente de mudança social, “A empresa é o maior responsável pela geração de riqueza e postos de trabalho na Espanha […] Este novo conceito de "empresa socialmente responsável" tende a integrar em sua estratégia aspectos considerados antes marginais ou filantrópicos e racionalizar seu gerenciamento para que confluam na essência da empresa: a rentabilidade econômica como fator chave para crescer e criar riqueza” . [4]

Este ponto de vista esconde importantíssimas conotações ideológicas, já que assinala que o “novo” empresário é capaz de se regular por si mesmo e criar riqueza para toda a sociedade, ideia defendida a fundo pelo ideário econômico de direita internacional, que afeta a tantos milhões de escravos e famintos. Em troca de um donativo superior a uma determinada quantidade econômica, 1000€ no caso da Ação contra a fome [5], a ONG coloca o logotipo da empresa em sua seção de empresas “solidárias”, “comprometidas” ou “colaboradoras”, servindo assim de publicidade para estes agentes ao associá-los com causas justas (apesar de as consequências de sua atividade econômica não o serem).

“Invista em sua marca, invista na luta contra a fome” é o slogan de Ação contra a fome nesta seção de sua website, na qual a ONG assinala também as vantagens de ser uma empresa comprometida: “cria valor de marca (associa a sua empresa a valores positivos e solidários), deduz 35% de impostos, diferencia da concorrência, fideliza seus clientes e melhora as vendas” são algumas delas. O mais importante é que ajudar nunca supõe uma diminuição do lucro econômico para os empresários.

Outro exemplo extremo de aposta destas organizações pela viabilidade da sociedade de consumo capitalista são os “cartões de crédito solidários”, frutos da associação entre as ONGs e os bancos. [6] A colaboração consiste no envio à ONG por parte do banco de uma parte dos lucros que lhe aporta o cartão. Organizações como Médicos Sem Fronteiras, Intermon Oxfam, Médicos Mundi ou Ajuda em Ação lançaram em 2007 seus cartões-exponsor associados a diversos bancos e caixas de poupanças com a fotografia de um ou vários “pobres” sob suas numerações, para recordar ao consumidor o trabalho humanitário que está realizando a cada vez que compra com algum deles. [7] Desta forma, alimentar à sociedade de consumo, e inclusive comprar produtos manufaturados por trabalhadores explorados, entre eles o grande coletivo que abarca as crianças que se encontram nesta situação, convertem-se em atos de solidariedade que contribuem para melhorar o mundo.

Este tipo de iniciativas resultam danosas devido ao fato de promoverem a chamada “ética mínima da ação humanitária” (Pica Contreras. J, 2003) na qual ajudar se converte numa ação cômoda, absolutamente afastada do sacrifício e do altruísmo, onde o combate à miséria e à desigualdade social não são fins em si mesmos e sempre a manutenção do bem-estar individual aparece em primeiro lugar. [8]

Isto se traduz finalmente no fomento do conformismo e do apolitismo (que tanto beneficiam ao poder pela inatividade que implicam) nas mensagens que emitem. Informam dos índices de pobreza, mas ocultam suas causas, o que lhes permite nutrir suas campanhas publicitárias com mensagens de forte ônus emotivo, que apelem à sensibilidade do público-alvo, sem ganhar a oposição visceral de todo o establishment político, mediático e econômico mundial.

Dedicam-se, portanto, a limar os defeitos mais incômodos que o capitalismo produz em vez de denunciar os pilares nos quais se assenta este sistema e os mecanismos que empregam seus principais beneficiários para manter suas mordomias. Seu ativismo consiste no desenvolvimento de obras de caridade, cujo objetivo é melhorar a situação de coletivos e comunidades pontuais, enquanto, por outro lado, limpam a imagem de seus carrascos e justificam o sistema econômico que lhes oprime, práticas nas quais não são pioneiros, já que a “empresa líder” tem sido e segue sendo a Igreja Católica.

Notas

[1] As ONGs estudadas através da informação disponível em suas websites foram: Ação contra a Fome, ACNUR, Aldeias Infantis, Ajuda em Ação, Cruz Vermelha, Intermón Oxfam, Médicos Sem Fronteiras, Médicos Mundi, Plan España, Save The Children, UNICEF.

[2] Ver: http://www.msf.es/colabora/empresas

[3] GIDDENS, Anthony. “Sociología”. 6ª Ed. Madrid: Alianza Editorial, 2010. 1272p. 9788420684673

[4] GIDDENS, Anthony. “Sociología”. 6ª Ed. Madrid: Alianza Editorial, 2010. 1272p. 9788420684673

[5] Ver: http://www.accioncontraelhambre.org/acciones/empresas_solidarias/

[6] ARREGOCÉS CARRERE, Benyi. “Productos financieros con fines sociales. Las tarjetas y fondos de inversión solidarios como herramienta contra las desigualdades sociales”. Eroski Consumer, Mayo 2008. M. LÓPEZ MAROTO, Rosa, GARCÍA, Azucena. “Tarjetas de crédito solidarias”. Eroski Consumer, Diciembre 2007.

[7] Atualmente a UNICEF, Intermón Oxfam y Aldeias Infantis têm seu cartão solidário associado à Bankia no caso das duas primeiras, e ao Banco Popular no caso da terceira.

[8] PICAS CONTRERAS, Joan. “Las ONG y la cultura de la solidaridad: la ética mínima de la acción humanitaria”. Papers, nº71, 2003, pp. 65-76

 

o original se encontra em: http://www.revistapueblos.org/spip.php?article2424