Wednesday, February 19, 2014

A luta de classes na Venezuela hoje


por Tânia Sáenz, para o Batalha de Ideias.

Foi anunciada outra tentativa de golpe de Estado na República Bolivariana da Venezuela. Os últimos acontecimentos, de 12 de fevereiro à data, desvelam que os planos golpistas seguem seu curso com táticas e tempos diferentes, mas com os mesmos atores que se obstinam em retomar o poder que perderam nas eleições, referendos, consultas legítimas e legais durante 15 anos.

É certamente uma lição de História: quando estão em jogo os interesses de classe, como ocorre na República Bolivariana da Venezuela, as regras do jogo, consolidadas para épocas ou conjunturas nas que a classe exploradora pode exercer sua hegemonia e poder de forma esmagadora, deixam de existir.

No marco dos atos de comemoração do 200° Aniversário da Batalha da Vitória, de 12 de fevereiro de 1814, quando o militar patriota José Félix Ribas e 200 jovens seminaristas e estudantes da Universidade de Caracas derrotaram as tropas realistas no estratégico Punto de la Victoria (Estado Aragua), a oligarquia venezuelana, dirigida pelos Estados Unidos, tentou “recriar” o golpe de Estado frustrado em 2002.

Muitas são as indagações e afirmações sobre o que está acontecendo no país. Uma análise simplista poderia levar à conclusão de que a população está descontente com o governo de Nicolás Maduro e decidiu tomar as ruas, já que, mesmo derrotada nas eleições municipais de 8 de dezembro de 2013, a oposição venezuelana continua atuando fora do marco constitucional, sem assumir a derrota e sem aceitar as formas de luta política vigentes. As tentativas de derrocar o processo bolivariano que começou em 1999 com a liderança do Comandante Hugo Chávez nunca cessaram.

O forte impacto emocional e político que se deu após o desaparecimento físico do Presidente Hugo Chávez sobre as classes populares foi aproveitado pela oligarquia para intensificar a guerra econômica e ideológica contra o povo. Após a vitória eleitoral do Presidente Nicolás Maduro em 14 de abril passado, os setores fascistas acharam que seu momento tinha chegado outra vez. A especulação de produtos da cesta básica, e também de faixa média e alta; o aumento da inflação; o descontrolado contrabando de petróleo, alimentos e outros produtos para a Colômbia; a fuga de divisas, etc., além do admitido problema da violência e segurança, que não podem ser entendidos sem os anteriores, esquentavam o ambiente.

A dúvida era se o novo Governo, que nasceu sob circunstâncias tão especiais e fortemente atacado por todos os lados, estaria à altura das circunstâncias. A resposta não demorou em chegar: o novo Governo, liderado por Nicolás Maduro, estava sim disposto a dar a batalha.

Enfrentou o tema da especulação e do encarecimento desorbitado dos preços. Conjuntamente com as comunidades organizadas, que configuram o que lá se chama de Poder Popular, foram realizadas centenas de inspeções que implicaram em fechamentos cautelares de estabelecimentos, abertura de processos judiciais de muitos especuladores, multas, fuga de empresários especuladores, etc.

Em 19 de novembro de 2013, a Assembleia Nacional aprovou A Lei Habilitante a pedido do Presidente da República, que “promete reforçar a ofensiva contra a Guerra Econômica que se orquestrou no país para roubar o povo”. Nicolás Maduro, em roda de imprensa, informou que “a partir de janeiro de 2014, iniciará com a mesma equipe de Governo uma nova ordem econômica que permita apoiar o povo… Com a Lei Habilitante vou deixar os preços onde têm que estar…”

O primeiro grande desenvolvimento da Lei Habilitante foi a aprovação da “Lei para o Controle dos Custos, Preços, Lucros e Proteção da Família Venezuelana” em 23 de janeiro de 2014. Dita Lei tem como objetivo “equilibrar a economia nacional e semear as bases da Nova Ordem Econômica proposta pelo Executivo, para que o país dê o salto para a industrialização, com base em preços e lucros justos…uma arma para enfrentar a guerra econômica que deixou em 2013 uma onda especulativa, quando empresários e comerciantes venderam produtos essenciais em até 2000% acima de seu valor real”, afirmou o Presidente.

Para pôr um fim à “captura” fraudulenta de divisas e atacar o mercado negro especulativo, o Instituto para a Defesa das Pessoas no Acesso aos Bens e Serviços (INDEPABIS) e a Comissão de Administração de Divisas (CADIVI) foram dissolvidos. Em seu lugar, foi criado o Centro Nacional de Comércio Exterior, que aglutina outras instituições relacionadas com o comércio exterior e que, nas palavras do Presidente, “supõe uma nova etapa. É a nova ordem econômica […] novos mecanismos que permitam pular a etapa aproveitada pelos inimigos da pátria […]. Não podemos seguir com o sistema do
cadivismo. Temos que tomar decisões radicais para um controle completo e real da renda petroleira para o investimento na economia e na sociedade”.

Outro problema latente em que se toca é o do contrabando na fronteira com a Colômbia. Os recursos de todo tipo que saem do país por essa extensíssima e conflituosa fronteira ascendem a quantidades soberbas. Saem recursos roubados do povo da Venezuela e entram dinheiro ilícito, drogas, armas e paramilitares. Nos Estados fronteiriços como Zulia e Táchira (também em outros próximos geograficamente), estas máfias, amparadas por governos corruptos, acumularam um forte poder, não só econômico, mas também político e criminoso.

Em 2012, ambos os Estados (Zulia e Táchira) foram governados por candidatos do PSUV. Quando as novas autoridades, seguindo as diretrizes do Governo central, anunciaram e começaram a atuar contra a esse comércio ilícito e bilateral, começou-se a observar os primeiros passos do golpe de Estado frustrado que culminaria neste 12 de fevereiro de 2014. Poucos dias antes, o Governo da República Bolivariana da Venezuela anunciou os acordos assinados com seu par colombiano, mediante os quais se proíbe o envio de encomendas de insumos, medicamentos, alimentos, etc.; assim como a proibição do envio de dinheiro em divisas. A partir de agora quem quiser enviar dinheiro da Venezuela à Colômbia deverá fazê-lo em pesos colombianos.

É importante mencionar também a aprovação e consolidação do “Plano da Pátria” pela Assembleia Nacional em 4 de dezembro de 2013, após um período de debates. Desenvolvido de acordo com o “Plano Socialista de Desenvolvimento Econômico e Social da Nação, 2013-2019”, proposta política do Presidente Chávez em sua última campanha eleitoral, que foi apresentada e defendida por Nicolás Maduro. Entre os objetivos este Plano, que já é Lei do Estado, contempla como grandes objetivos históricos, entre outros: “Defender, expandir e consolidar o bem mais precioso que temos reconquistado após 200 anos: a Independência Nacional; continuar construindo o socialismo bolivariano do século XXI na Venezuela como alternativa ao sistema destrutivo e selvagem do capitalismo…”

O fascismo: sua cara e seu plano

Quem são os que compõem esta corrente golpista? Entre suas filas estão empresários da poderosa Fedecamaras, donos de meios de comunicação privados, nacionais e internacionais; partidos políticos, ONGs e igrejas articuladas na Mesa de la Unidad Democrática (MUD), seus aliados internacionais na Espanha, Colômbia e Miami, e o Departamento de Estado dos Estados Unidos.

A emblemática figura do golpe de abril de 2002, o multimilionário empresário Pedro Carmona, é o pai do golpismo. Refugiado na Colômbia desde aquela época, mantém uma rede de golpistas na Venezuela. Entre eles, Jorge Roig e Eligio Cedeño como operadores políticos, o primeiro em Caracas e o segundo em Miami. Ambos promovem o boicote econômico, desabastecimento e a
especulação de produtos. Além de financiar grupos conspirativos com fachada de civis como a ONG Humano y Libre. E, claro, mantêm laços com Otto Reich, cubano-americano, que tem um currículo digno de um terrorista, pertence ao governo estadunidense e canaliza toda a energia possível contra a Venezuela.

A matriz de opinião dada pelos meios regionais, principalmente o colombiano NTN24 e a estadunidense CNN, é que o cenário é de “mobilizações pacíficas” vs “excesso das forças de segurança”. Enquanto isso, os grupos unidos ao partido de direita
Voluntad Popular saem violentamente às ruas provocando a morte de 3 pessoas e 66 feridos.

Com o apoio dos golpistas, ONG’s se proliferam e atuam abertamente. O Centro de Divulgação do Conhecimento Econômico para a Liberdade (CEDICE), que tem como principal financiador o Centro para a Empresa Privada Internacional dos Estados Unidos (CIPE), é o mais visível. Posicionando-se politicamente como entidade crítica às políticas econômicas do governo venezuelano, promove o boicote.

Os partidos que se reúnem na MUD são Acción Democrática, Primero Justicia, COPEI, Causa Radical, Voluntad Popular, Proyecto Venezuela, entre outros grandes e pequenos, que se uniram para forjar um bloco opositor. Liderado por Henrique Capriles, ex-candidato presidencial, participa nas eleições e controla algumas municipalidades e governações (estados venezuelanos), assim, instrumentaliza e gerencia projetos de cooperação internacional com a USAID e a Fundação Nacional para a Democracia (NED, por sua sigla em inglês). Seu objetivo fundamental é derrotar o bolivarianismo a qualquer custo.

A oposição também conta com o apoio da direita internacional, principalmente dos partidos, representantes empresariais, intelectuais e políticos aglutinados na União de Partidos Latino-americanos (UPLA) e da Fundação para a Análise e Estudos Sociais, presidida pelo ex-presidente espanhol José María Aznar. Em 2009, a direita latino-americana se reuniu em Caracas no “Encontro Internacional Liberdade e Democracia: O Desafio Latino-americano” com o fim de aprofundar a campanha midiática e política contra o governo da Venezuela. O Partido COPEI lançou a palavra de ordem “golpe brando” contra o bolivarianismo.

Outro ex-presidente que não poderia faltar é Álvaro Uribe, colombiano, acusado legalmente e publicamente por narcotráfico e paramilitarismo. Muitas são as denúncias sobre sua participação nas tentativas de golpe do exterior.

Além disso, o Departamento de Estado dos EUA dá cobertura ao bloco opositor. A NSA e a CIA contam com base de operações no país. A embaixada estadunidense é uma incubadora de conspiradores e ações desestabilizadoras, como foi denunciado em várias ocasiões pelo governo do Presidente Chávez, que entrou em conflito direto com os diplomatas, declarando-os
persona non grata.

No contexto das recentes ações de rua do partido
Voluntad Popular, a Venezuela expulsou outros três diplomatas que nas Universidades realizavam atividades conspirativas e em troca prometiam vistos estadunidenses aos estudantes. O senador John Kerry, designado como próximo secretário de Estado dos Estados Unidos, deu delcarações no Senado sobre sua expectativa para o futuro da Venezuela: “Acho que, dependendo do que acontecer na Venezuela, pode haver uma oportunidade real para uma transição”.

A atual política de força implementada pelos grupos de direita
Voluntad Popular liderada por Leopoldo López e secundada pela também opositora María Corina Machado, é um componente da estratégia geral de desgaste do governo de Nicolás Maduro.

Trata-se de um bloco opositor político de grupos de direita que participam em eleições, desestabilizam através dos meios de comunicação, armam grupos paramilitares e atuam em manifestações em conjunturas específicas, segundo suas avaliações sobre o momento político. Qualquer uma das duas vias, pacífica ou violenta, nunca ficam definitivamente descartadas.

Em um contexto muito difícil para a economia venezuelana, as mobilizações e a violência dos grupos de direita, encontram terreno fértil. O conglomerado golpista avalia que é o momento de debilitar estrategicamente o governo bolivariano.

O que vimos até então foram grupos armados, franco-atiradores, estudantes manipulados, dirigentes de extrema direita fazendo chamados públicos à rebelião até que o Governo democraticamente eleito caia; tentativas de assalto às instituições do Estado (como foi o caso do Ministério Público e do canal público Venezolana de Televisión); páginas na internet e Twitter hackeados; declarações gravadas nas que se anunciaram mortes antes de acontecerem…

Porém, a legítima resposta do Governo não se fez esperar: detenções, ordens de busca e prisão. O Presidente Maduro anunciou “Não existe porta-voz do império que possa conosco, não nasceu ainda quem possa com a Venezuela, porque esta é a pátria de Bolívar e é o povo de Chávez”.

E o povo, nas ruas, grita “ A pátria não se vende, a pátria se defende!”, “Aqui, os Venezuelanos estão com os pés na terra! Dispostos a defender a pátria bonita e a defender o legado de nosso Comandante Hugo Chávez Frías!” e “Fascistas, não passarão!”


Friday, February 7, 2014

MÉDICOS CUBANOS: A VERDADE SOBRE A FUGA





Há dois anos, em 2011, o canal-web cubano Cubainformación respondia a um ataque conjunto de toda a grande mídia oligopolista hispano-americana, que fazia alarde sobre a suposta "deserção" de médicos cubanos da missão Barrio Adentro, na Venezuela.

A missão Barrio Adentro, então um dos principais programas sociais do governo bolivariano da Venezuela, tem algo de parecido com o Mais Médicos do governo Dilma. Ali, assim como aqui, médicos cubanos eram enviados em missão aos bairros mais pobres de Caracas (os barrios, as favelas venezuelanas) para atender à população de que a elite médica local recusava-se a tratar.

Ali, assim como aqui, em 2011, alguns médicos cubanos integrantes da missão Barrio Adentro desertaram a brigada de solidariedade popular e pediram asilo nos Estados Unidos, formando parte de um programa especial vinculado ao Departamento de Estado estadunidense, o Cuban Medical Professsional Parole.

No post de hoje o Batalha de Ideias reproduz o video de Cubainformación, em solidariedade a todos os 40 mil médicos cubanos presentes em missões ao redor do mundo, em solidaariedade a todos aqueles que, ao invés da deserção reafirmam suas posições de tratar da população carente e que levantam alto a bandeira do internacionalismo proletário.


Friday, January 31, 2014

Governo Alckmin mostra novamente sua faceta fascista


Cláudia Campos, especial para o Batalha de Ideias.

Em 23 de janeiro, uma Operação do Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc), da Polícia Civil, reprimiu com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha a população em situação de rua na área conhecida como “Cracolândia”, região central de São Paulo. Quarenta pessoas foram detidas e agentes das secretarias municipal de Saúde e de Assistência Social, que atuavam ali pelo programa Braços Abertos e não sabiam da ação, ficaram sob fogo cruzado.
Não causa nenhum estranhamento a reação do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), ao oferecer explicações sobre a repressão desencadeada pela ação da Polícia Civil.
Em sua declaração à imprensa, Alckmin não indica vontade e nem compromisso de apurar os excessos cometidos pelos policiais contra uma população indefesa e vulnerável. Tampouco chamou o secretário de Segurança Pública, Fernando Grella, para prestar explicações. Ao contrário, alinhou-se à versão de que os policiais foram agredidos, o que justificaria sua ação violenta.
Para o governador, o que está em jogo na “Cracolândia” não são as 300 pessoas que passaram a ser beneficiadas pelo programa assistencialista da prefeitura - que “tira” os “dependentes” da rua, os abriga em hotéis próximos e oferece trabalho na zeladoria da cidade, pelo qual recebem R$ 15 por dia – mas sim a visão da elite paulista reacionária de que pobre bom é aquele a quem se reprime e maltrata. Em 2012, então em parceria com Gilberto Kassab (PSD), durante a Operação Sufoco, que pretendia limpar a área para permitir a privatização da “Nova Luz”, os “dependentes químicos” da região também foram violentamente reprimidos.
É a elite paulistana e seus representantes tucanos mostrando sua faceta fascista e higienista, expressando seu ódio de classe.


Monday, January 27, 2014

460 anos da cidade de São Paulo: o que temos para comemorar?


Retomando as atividades nos 460 anos da cidade de São Paulo, o Batalha de Ideias publica o artigo "460 anos da cidade de São Paulo: o que temos para comemorar?".

Em seus 460 anos de existência, uma pequena aldeia formada ao redor de um Colégio de Jesuítas transformou-se em um dos maiores centros urbanos do mundo: a Região Metropolitana de São Paulo. Com uma população de aproximadamente 20 milhões de habitantes, 39 municípios e uma área urbanizada de cerca de 1.700 quilômetros quadrados, a metrópole tem um eixo Leste-Oeste que cobre mais de 80 km de extensão urbana.

A fundação de São Paulo insere-se no processo de ocupação e exploração das terras desse continente pelos portugueses, a partir do século XVI. A data oficial de sua fundação é 25 de janeiro de 1554, quando foi rezada a primeira missa no "Colégio São Paulo de Piratininga", dando origem ao povoado que se formou ao seu redor. O lugar escolhido foi estratégico para a proteção contra ataques dos povos indígenas, que resistiam à ocupação, numa elevação entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú.

Em 1681, São Paulo foi considerada centro da Capitania de São Paulo e, em 1711, a Vila foi elevada à categoria de Cidade. Até o século XVIII, São Paulo continuava sendo o quartel-general de onde partiam as "bandeiras", expedições organizadas para caçar indígenas e procurar minerais preciosos nos sertões distantes. A atividade bandeirante foi a responsável pelo devassamento e ampliação do território brasileiro a sul e a sudoeste, na proporção direta do extermínio das nações indígenas.
Durante os três séculos iniciais, a cidade permaneceu contida em seu território original, uma pequena elevação entre o rio Tamanduateí e o ribeirão Anhangabaú. Porém, a modernização radical de sua estrutura econômica e urbana teve início com a instalação da ferrovia Santos-Jundiaí, na segunda metade do século XIX. Assumia, então, sua posição estratégica, de passagem obrigatória entre o porto e as rotas de escoamento do café, plantando em todo o interior paulista. A agricultura cafeeira veio a ser o motor do processo de industrialização do país.

Na passagem do século XIX ao XX, a cidade já estava completamente transformada. Com um comércio diversificado, que atraia todo tipo de atividade, a área urbanizada se expandiu para atender o rápido e vertigino aumento da população, que contou com a vinda de imigrantes estrangeiros, em sua maioria italianos, portugueses, espanhóis, sírio-libaneses, japoneses e judeus.

A industrialização na região se acelerou durante a Primeira Grande Guerra, e com ela a degradação das condições de vida dos operários que sofrem com salários baixos, jornadas de trabalho longas e doenças. Só a gripe espanhola dizimou oito mil pessoas em quatro dias. Recordemos a Greve Geral em 1917, que parou toda a cidade por muitos dias.
A partir da década de 30, a unificação do mercado nacional, tanto física como politicamente, criou condições para uma crescente concentração do capital, impedida anteriormente pela fragmentação regional do mercado.

No Brasil, a concentração espacial do capital se deu primordialmente em São Paulo por diversos motivos, mas principalmente porque a cidade já possuía o maior parque industrial do país como consequência do grande mercado regional formado pela cafeicultura.

Ao atingir um milhão de habitantes, a cidade assumiu um caráter de metrópole industrial. Começou a verticalização da área central e a construção de vários bairros industriais e operários.

A partir da década de 40, o prefeito Prestes Maia colocou em prática o seu "Plano de Avenidas", com amplos investimentos no sistema viário. A preocupação com o espaço urbano visou abrir caminho para os automóveis e atender aos interesses da indústria automobilística, que se instalou em São Paulo em 1956.

O processo de substituições de importações atingiu as indústrias de bens de consumo durável, bens de capital e bens intermediários, cujos investimentos se deram em grande parte através do capital estrangeiro, que trouxe técnicas de produção em massa. Deste modo, essa concentração de atividades industriais condicionou uma extraordinária expansão de atividades terciárias na região. A atividade comercial se especializou e ampliou. Assim como a financeira.

Nas décadas seguintes, acompanhando o desenvolvimento econômico da cidade, o intenso fluxo migratório de outras regiões do país para São Paulo gerou a construção de bairros irregulares nos espaços vazios do perímetro urbano. Atualmente, a cidade concentra a maior quantidade de favelas do Brasil, assim como a segunda maior população favelada do país em números absolutos (a primeira está na cidade do Rio de Janeiro). De acordo com dados de 2000, somando-se a população favelada aos moradores de residências classificadas como irregulares, mais da metade dos paulistanos vive em habitações classificadas como "submoradias". De acordo com dados oficiais do Censo de 2010 do IBGE, cerca de 11% da população da região metropolitana moram em "assentamentos subnormais", a definição do governo para classificar as favelas.

Uma das características da economia capitalista é que as desvantagens da aglomeração, apesar de causadas essencialmente pelas empresas privadas, acabam tendo seus custos socializados, já que as soluções dos problemas que emergem passam a ser de responsabilidade do Poder Público.

Os incontáveis sofrimentos da população que vive o caos urbano (condições precárias e desumanas de saúde, moradia, transporte, educação, lazer e trabalho; violações de direitos; domínio do espaço privado sobre o público) provêm antes do atraso da adoção de medidas do que da ausência de recursos para financiá-las. Os contrastes que se apresentam são expressões das contradições de um sistema que, para continuar desenvolvendo as suas forças produtivas, vai sempre suscitando novos problemas.
A análise destes problemas isolados, sem o reconhecimento de um capitalismo com contradições e em movimento, não passa de um exame daqueles que se recusam a analisar a essência do sistema que os gera.

O 460º aniversário da cidade foi marcado por eventos culturais, “rolezinhos” e protestos. Enquanto Paulinho da Viola fazia um show gratuito na Praça da República, a Polícia Militar perseguiu e reprimiu violentamente manifestantes contra a Copa do Mundo, dentro do Hotel Linson, na Rua Augusta, com um saldo de 128 detidos. Os manifestantes, encurralados no local para escapar das balas de borracha e do gás atirado, ouviam os policiais ameaçando que "se vocês não ficarem quietos, vamos fazer com vocês igual fazemos com as pessoas na quebrada". Neste episódio, um jovem de 26 anos foi espancado, está com um coágulo na cabeça e teve traumatismo nos dois maxilares e três dentes quebrados - sua arcada terá de ser refeita em cirurgia. Seu nariz terá que passar por uma cirurgia plástica. 
 
Além disso, um jovem de 23 anos foi baleado e está em estado de coma. Moradores de Higienópolis, região em que o homem foi alvejado, disseram que durante a ação era possível ouvir os policiais gritarem “ Mata! Mata!”.
O que há para se comemorar?

Cláudia Campos, Inverta - São Paulo.

Monday, January 20, 2014

Genebra II, uma conferência sumamente polarizada?



   Por Manuel Vázquez*

Damasco (Prensa Latina) Ao invés do buscado pelos chamados grupos opositores armados e seus patrocinadores, principalmente Estados Unidos, Arábia Saudita, Turquia e Catar, a atual guerra na Síria poderia ter gerado na população do país um maior apoio ao presidente Bashar al-Assad.
Um fator determinante nessa realidade é a marcada rejeição popular aos constantes crimes contra os cidadãos cometidos pelos extremistas islâmicos opostos ao governo, incluídos milhares de estrangeiros de 83 países, principalmente tunisinos, líbios, iraquianos, palestinos, sauditas, libaneses e egípcios.

E ao invés do consenso internacional com respeito à crise síria, que descarta a possibilidade de uma desvinculação por meios bélicos, vários damascenos consultados pela Prensa Latina consideram muito provável a necessidade das armas para terminar a guerra.

Além disso, o sentimento preponderante em frente à vindoura conferência de paz Genebra II entre sírios de diversas orientações religiosas ou origem étnica, é que qualquer solução ao conflito deve ser puramente nacional, sem ingerência estrangeira.

O pensamento comum é que as dezenas de milhares de extremistas islâmicos que atuam no país (boa parte deles vinculados à rede Al-Qaeda) têm como propósito explícito estabelecer um califado islâmico regido pela xária em toda a região.

Para esses grupos armados, o quanto se discuta ou estabeleça na Genebra II não representa nada, fato que leva aos sírios se perguntarem: Se com os jihadistas não se pode dialogar, como expulsá-los do país se não derrotando-os militarmente?

Por isso Damasco insiste que, na Genebra II, um tema clave deve ser o freio ao apoio externo aos grupos terroristas, sem o qual se supõe que minguariam suas capacidades militares.

Junto a esse ponto, na Suíça se abririam as portas ao diálogo entre o governo e a oposição, na qual se incluem partidos políticos organizados dentro da Síria, bem como outros agrupamentos com base fora do país, entre as quais predominam os desencontros sobre uma vontade comum.

Por enquanto, dentro da Síria muitos grupos políticos já manifestaram publicamente suas posições.

Os representantes das tribos nacionais (estrutura social tradicional constituída por milhares de famílias, principalmente nas zonas rurais) afirmaram publicamente que seus representantes estão dentro do país, e aqueles que se encontram no estrangeiro não têm direito de falar em nome destas ou dos sírios no geral.

Segundo uma recente declaração, os chefes de clãs concedem à delegação formada pelo governo para a Genebra II todo o direito e o mandato popular de representá-los.

Os sírios, manifestam, são os únicos capazes de encontrar uma solução à crise que atravessa o país, sem ingerência externa.

Representantes de 11 partidos reunidos neste janeiro, na cidade de Latakia, coincidiram em recusar projetos impostos por outros países.

Nessa reunião, o ministro de Estado para Assuntos de Reconciliação Nacional, Ali Haidar, deixou claro que apesar de que Genebra poderia ser uma oportunidade para pôr fim ao conflito, a sociedade síria não deve depender de nenhum processo político gestado no exterior.

Anteriormente, o ministro de Informação sírio, Omran al-Zougbi, ratificou a posição de Damasco de que qualquer ação ou acordo a que se chegue na Genebra II só terá valor se for aprovado pelo povo em referendo.

Não obstante, ainda que na Síria poderia existir no futuro um governo amplo, alertou, nunca seria um órgão governamental de transição, tal como ocorreu no Iraque após a última invasão dos Estados Unidos.

E com relação ao principal ponto de discórdia: enquanto os opositores externos, bem como seus patrocinadores, fazem questão da retirada do presidente Bashar al-Assad, al-Zougbi assegurou que atualmente existe no país uma vontade popular a favor de que ele se declare como candidato presidencial para as eleições de 2014.

De fato, analistas locais estimam que nesse caso, o atual presidente triunfaria nas urnas sem problemas.

Assim, tudo indica que na Genebra II serão apresentados a ambos os lados da mesa de negociações posições antagônicas muito difíceis de serem harmonizadas, o que leva ao ceticismo sobre o possível sucesso dessa complexa reunião.

*Correspondente da Prensa Latina na Síria.




Tuesday, April 16, 2013

Hugo Chávez morreu, Viva Hugo Chávez e a Revolução Bolivariana!



por P.I Bvilla, pelo Órgão Central do PCML (Br).
 
Nota do PCML: Hugo Chávez morreu, Viva Hugo Chávez e a Revolução Bolivariana!
A morte de Hugo Chávez Frías, líder incontestável da Revolução Bolivariana na Venezuela e expressão singular da plêiade de lideranças, que a partir dos anos 90, fulgurara no cenário político da América Latina, em resistência à estratégia neoliberal do imperialismo estadunidense abre uma nova fase no processo revolucionário na Venezuela com profundas repercussões no continente latino-americano e luta dos povos oprimidos no mundo.

Na Venezuela a questão fundamental que se apresentará é até que ponto a Revolução Bolivariana consolidou raízes e lideranças junto ao povo venezuelano capazes de ir além em sua marcha rumo ao Socialismo do Século XXI. O que remete à questão teórica da simbiose entre as ideias libertárias de Simón Bolívar e próceres da luta pela independência da América Latina com as ideias revolucionárias do marxismo-leninismo ao estilo do caminho que se seguiu em Cuba, de Martí a Fidel. Em termos da América Latina a questão que se apresenta é até que ponto o processo interno na Venezuela reduzirá suas relações econômicas e políticas solidárias com o processo revolucionário na América Latina e Oriente Médio, revertendo o impulso dado por Chávez à soberania econômica e política frente aos Estados Unidos.

Quanto às análises que buscam interpretar as tendências históricas do processo revolucionário bolivariano a partir deste trágico, porém já esperado, desdobramento da luta de Chávez contra o câncer, focadas nas teses do carisma e populismo weberianos esquecem que o fundamental não está nem no carisma, nem na ilusão política do personagem que liderava a Revolução Bolivariana, pois não foi pelo carisma que um jovem tenente-capitão em 1992 se levantou em armas, acompanhado de trezentos homens em assalto ao poder, emblemando a raiz histórica e razão de ser de Nossa América independente. Neste caso, se explica mais pelos ideais revolucionários e a coragem política de ir às últimas consequências destes ideais, ao contrário da trajetória focada no discurso carismático, próprio dos clérigos e pastores protestantes; por outro lado, os que o enquadram sob o rótulo populista, expressão vinculada ao discurso enganoso que promete o céu na terra, também erram, pois desde seu martírio no cárcere até sua anistia e eleição, todas as suas promessas programáticas se destinaram à promover a soberania e integração do Povo Venezuelano e a América Latina, portanto, o ideal bolivariano e paralelamente a este processo desenvolver as instituições e distribuição da riqueza de forma socializada; a estatização do petróleo, reforma agrária, comunas de produção agrícolas, obras de infraestrutura, alfabetização, saúde, enfim, medidas indeléveis de igualdade e dignidade para o Povo pobre da Venezuela, sem o recurso da perseguição política discricionária e fora dos marcos da legalidade constitucional.

Naturalmente, guardadas as devidas proporções, o processo revolucionário que se seguiu na Venezuela encontra seu paralelo em Cuba e, por mais distante que pareça, na Rússia de Lênin, pois trata-se de um processo político que, impulsionado pelas contradições econômicas é alavancado pela luta de classes projetando o fator subjetivo à frente do objetivo, constituindo o que se chamou de revolução de cima para baixo. Nestes termos, em que o processo histórico é dirigido pelo fator subjetivo a objetividade econômica e estrutural da sociedade reduz a elasticidade da subjetividade das estratégias, programas e projetos revolucionários frustrando sua completa realização, porém, instigando a necessária complementação, ratificação e retificação e autocrítica da ação revolucionária. Ao senso comum é simples comparar, como fazem os arautos da mídia nazifascista, a ideia do populismo político do “prometeu mas não cumpriu” ou o conceito vulgar do caudilhismo quando as forças revolucionárias são premidas a irem além de seu esforço regular, esgarçando -se em seus pontos mais frágeis, que servem de prato cheio para a oposição reacionária; porém, é impossível para uma sociedade onde o desenvolvimento das forças produtivas foram atrofiadas desde sua formação como Estado nacional pela divisão internacional do trabalho superar estas atrofias. Não é fácil para um país que por quase um século viu sua estrutura econômica moldar-se a produtor de petróleo para alimentar o imperialismo estadunidense, atrofiando sua agricultura, seu desenvolvimento comercial e o seu povo, alterar radicalmente esta condição, tornando-se autossuficiente, soberano e igualitário em menos de uma década e meia, período de triunfo da Revolução Bolivariana. A redução weberiana na análise histórica da Revolução Bolivariana ou a velha e surrada crítica do reacionário Tocqueville à Revolução Francesa, que mescla o discurso neoliberal em sua crítica à centralização e ao planejamento do esforço revolucionário para atingir suas metas com os inevitáveis desvios, descontroles e outros problemas que acarretam a realização das mesmas não são novidades, nem representam nada de novo para a humanidade. O problema fundamental de Capriles e dos grupos imperialistas e reacionários na Venezuela que o apoiam está, precisamente, neste discurso carismático e populista, que a exemplo mais nu pode ser encontrado em Carmona e seu caudilhos, no sentido vulgar da expressão, cuja pequena mostra exigiu o martírio do povo venezuelano contra o golpe a Chávez e à Revolução Bolivariana.

Os EUA e sua diplomacia de rapina utilizam-se destas forças reacionárias de todas as formas possíveis, financiam sua propaganda e atentados contra lideranças revolucionárias; talvez hoje a Venezuela seja o maior ponto de concentração da espionagem internacional e de mercenários, visando o “outono revolucionário” neste país. Num paralelo entre a Revolução cubana e a Revolução Bolivariana na Venezuela não é exagero pensar na estranha origem da doença que causou a morte do Presidente Chávez como atentado, a exemplo das centenas de atentados, todos documentados e registrados, contra Fidel Castro, ou ainda o envenenamento de Yasser Arafat, na verdade, parece coincidência muito grande que Cristina Kirchner, Fernando Lugo, Dilma Rousseff e Lula tenham tido quase que simultaneamente – a exemplo de Chávez, câncer; todos lideranças que despontaram nos anos 90 na América Latina em oposição às estratégias e forças neoliberais dos EUA no continente. Este capítulo na história destas lideranças na América Latina aguarda uma versão.

Deste modo, nada se pode esperar da análise proveniente dos opositores e forças reacionárias na Venezuela e demais países da América Latina, em especial, no Brasil, pois a tendência histórica que ora se apresenta na Venezuela será o impulso à Revolução Bolivariana adiante, por um lado porque é impossível a reprodução de uma liderança política igual a Chávez, capaz de sustentar uma correlação de forças dentro da sociedade que permita avançar pontualmente a Revolução, mantendo-se num quadro de integração da América Latina e Oriente Médio e, ao mesmo tempo, manter relações necessárias com os Estados Unidos; por outro lado, porque tanto as forças revolucionárias como as forças reacionárias buscarão preencher o vazio político deixado por Chávez como figura singular e expressão política do processo revolucionário venezuelano. Naturalmente, Nicolás Maduro, ex-sindicalista e expoente de primeira grandeza do governo revolucionário de Chávez, inclusive indicado por este à sua sucessão tende a se tornar o repositório de toda a vontade política popular de avançar a Revolução adiante; entretanto, mesmo rotulado como bom negociador, não será capaz de sustentar a atual correlação de forças, caso sua liderança não esteja em harmonia com as Forças Armadas e o Poder Legislativo, o que implica em um aprofundamento do programa revolucionário, que ultrapasse os limites da representação política e se condense na unidade de objetivos estratégicos e táticas das forças revolucionárias, vencendo as limitações históricas da ceifa de lideranças, que se processou na América Latina no decurso da guerra suja, ancoradas nas ditaduras militares pró-EUA. Este vácuo de lideranças que repousam no silêncio dos cemitérios legais e clandestinos das ditaduras retiraram do movimento revolucionário, que se insurge nos anos 90, as bases para a consolidação de uma força revolucionária capaz de sustentar até as últimas consequências o Programa da Revolução. As tentativas de construção revolucionária, conduziram Chávez do Movimento Quinta República ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), reconfigurando a disposição e correlação de forças intra e extra revolucionárias. Com a ausência de Chávez chegou o momento em que esta força e suas lideranças são chamadas a irem além do esforço regular, trata-se estrategicamente de projetar-se à frente, avançando os limites da Revolução para uma maior margem de manobra quando de uma nova onda contrarrevolucionária . Hugo Chávez compreendia muito bem este vazio revolucionário na América Latina decorrente das ditaduras militares. Daí, a tese do resgate do ideário bolivariano, unificando as forças revolucionárias para além do ideário socialista, conformando uma grande maioria como base fundamental da Revolução. Por outro lado, via em Cuba e no processo histórico da Revolução Russa os ensinamentos teóricos e fundamentos práticos revolucionários, que imprimiam a direção do ideário e as bases materiais da Revolução Bolivariana ao Socialismo. Sua expressão de Socialismo do Século XXI repousa fundamentalmente nesta simbiose. Cabe, assim, esperar das forças revolucionárias da Venezuela a continuação deste caminho projetando-se à frente do processo objetivo para que este último consolide e avance em suas conquistas econômicas e sociais.

O Brasil, a Argentina, a Bolívia, o Equador, a Nicarágua, Cuba, todos cuja ideia estratégica de soberania e independência exige o árduo caminho de ruptura com as condições de submissão ao imperialismo estadunidense, europeu e asiático e construção de um novo paradigma de desenvolvimento econômico e social, capaz de projetar dias melhores para todos devem, político, econômico e praticamente somarem-se ao Povo venezuelano e suas forças revolucionárias no comando da Revolução Bolivariana, apoiando o seu processo de avanço e consolidação no sentido da integração continental bolivariana e na direção da igualdade social e econômica socialista. Chávez está morto, Viva Chávez! 

Viva a Revolução Bolivariana na Venezuela e continental!

Ousar Lutar, Ousar Vencer!

Monday, April 8, 2013

Iraque: 10 º aniversário do crime estadunidense contra a humanidade



por Sara Flounders, traduzido por Vinicius C. para o Batalha de Ideias.

Os grandes meios de comunicação nos EUA desempenham um papel importante na preparação para a guerra imperialista. Eles desempenham um papel ainda mais insidioso em reescrever a história das guerras dos EUA e obscurecendo seus propósitos.

Estão totalmente interligados com os militares dos EUA, o petróleo e as corporações financeiras. Em toda guerra, esta instituição extremamente poderosa conhecida como "quarto poder", um braço das relações públicas do domínio corporativo, justifica a pilhagem imperialista e o esmagamento de todos os dissidentes.

Reminiscências da imprensa corporativa e avaliações da presente semana do 10 º aniversário da Guerra do Iraque, que começou a 19 de março de 2003, são um lembrete austero de sua cumplicidade na guerra.

Nos vários artigos publicados há poucas menções às centenas de notícias que saturaram totalmente os meios de comunicação nos meses que antecederam o ataque do Pentágono. A cobertura da imprensa em 2003 foi completamente infundada, com as mentiras das "armas de destruição em massa" secretas iraquianas, sinistras ameaças nucleares, programas de guerra biológica, compra de urânio, laboratórios de gás nervoso e a demonização racista de Saddam Hussein como a maior ameaça para a humanidade. Tudo isso agora está encoberto e esquecido.

As armas nunca foram encontradas no Iraque, mas nenhum oficial estadunidense foi acusado de fraude. Heróis como o soldado B. Manning, no entanto, enfrentam a vida na prisão por liberar documentos expondo a extensão de alguns destes crimes premeditados.

Hoje, nas histórias populares, uma vaga menção é feita à verdadeira razão para a guerra: a disposição de impor uma mudança de regime no Iraque, a fim de garantir o controle corporativo dos EUA e o domínio dos vastos recursos de petróleo e gás da região. O Iraque era para ser um exemplo para todos os países que tentam um desenvolvimento independente de que a única opção era a completa submissão ou a destruição total.

Agora já não é sequer um debate político que a invasão dos EUA e a ocupação do Iraque foram um desastre ululante e um grande erro imperialista para os interesses estratégicos dos EUA. Apesar de toda a determinação para ocupar o Iraque com 14 bases militares permanentes, o exército de ocupação dos EUA foi forçado a se retirar face à feroz resistência nacional iraquiana.

Bush estava no convés do porta-aviões estadunidense Lincoln no fatídico maio de 2003, com uma faixa de "missão cumprida" atrás, para declarar o fim da guerra. Mas o que os EUA, inchados na sua arrogância imperialista, não previu era que a resistência tinha apenas começado.

Estrategistas norte-americanos, tão cheios de vaidade sobre suas poderosas armas, ignoraram a mensagem exibida em cartazes, outdoors e manchetes de todos os jornais do Iraque. Estava até na manchete de um jornal de língua inglesa de lá, quando este repórter estava no Iraque com uma delegação de solidariedade algumas semanas antes do "choque e pavor" caudado pelo ataque estadunidense.

O slogan muitas vezes repetido foi: "O que as selvas no Vietnã representaram em sua resistência, as cidades do Iraque serão para nós."

O governo iraquiano abriu os armazéns e distribuiu seis meses de rações alimentares para a população antes da guerra. Cada pacote tinha a frase: "Lembre-se de alimentar um lutador da resistência." Armas de pequeno calibre, explosivos e instruções simples para fazer dispositivos explosivos improvisados foram distribuídas publicamente.

Em última análise, o poder corporativo dos EUA foi derrotado no Iraque, devido à sua incapacidade de ser uma força para o progresso humano em qualquer nível. Foi incapaz de realizar uma reconstrução.

A força avassaladora das armas dos EUA foi capaz de destruir as realizações mais expressivas da soberania iraquiana de décadas passadas e inflamar velhas feridas sectárias. Mas foi incapaz de derrotar a resistência iraquiana ou até mesmo ganhar a votação de um acordo de forças em um Parlamento iraquiano que os próprios planejadores norte-americanos criaram.

A não-cobertura da imprensa estadunidense

Na cobertura do 10 º aniversário, a mesma mídia que vendeu a guerra recontou a decisão criminosa de invadir e ocupar o Iraque apenas como inteligência equivocada ou informação errada. Ao mesmo tempo em que lavam as mãos sobre as oportunidades perdidas e a falta de previsão, eles dão uma rápida saudação aos 4.448 soldados norte-americanos que morreram e os 32.221 feridos. Pelo menos 3.400 trabalhadores contratados norte-americanos morreram, um número quase não mencionado ou subnoticiado.

Mais de 1,1 milhão de soldados norte-americanos serviram no Iraque. O Conselho Nacional de Deficiência diz que até 40 por cento dos veteranos das guerras no Iraque e no Afeganistão sofrem de stress pós-traumático e lesão cerebral traumática.

A invasão do Iraque pelos EUA foi a guerra mais ampla e detalhadamente relatada na história militar. No entanto, a enormidade do crime cometido contra o povo iraquiano, as centenas de milhares de mortes silenciosas da falta de infra-estrutura médica, os milhões de refugiados, a catástrofe ambiental, os resíduos radioativos e químicos deixados para trás foram ignorados na cobertura de então e hoje são ignorados.

No início da guerra, em março de 2003, 775 repórteres e fotógrafos foram registrados e viajaram como jornalistas incorporados. O número cresceu para milhares de pessoas. Esses repórteres assinaram contratos com os militares que limitavam o que eles eram autorizados a relatar.

Por isso não deve ser nenhuma surpresa que estão completamente ausentes da cobertura a responsabilidade pela destruição calculada do Iraque, a corrupção massiva e a pilhagem sistemática, ou a política consciente de inflamar o ódio sectário e a violência como uma tática para desmoralizar a resistência.

Estatísticas não podem transmitir a perda humana. Uma em cada quatro crianças iraquianas com menos de 18 anos perderam um ou ambos os pais. Em 2007, foram 5 milhões de órfãos iraquianos, de acordo com estatísticas oficiais do governo. Em 2008, apenas 50 por cento das crianças em idade escolar primária estavam frequentando as aulas. O Iraque, que tinha a menor taxa de analfabetismo na região, foi reduzido a ter a mais alta. As mulheres sofreram as maiores perdas em educação, profissões, atendimento infantil, alimentação e em sua própria segurança na ocupação brutal.

De acordo com dados do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, existem hoje 2,7 milhões de iraquianos deslocados internamente e 2,2 milhões de refugiados, a maioria em estados vizinhos. Mais de um quarto da população do Iraque foi morta, tem alguma deficiência ou foi deslocada como refugiada devido aos anos de ocupação dos EUA. Isto não é libertação.

Falta nas muitas avaliações do 10o aniversário o contexto histórico essencial. A guerra de 2003 foi uma continuação da guerra de 1991 para destruir o Iraque como nação soberana com o controle de seus próprios recursos. Há apenas uma menção da destruição seletiva em 1991 de água potável, saneamento, esgotos, irrigação, comunicações e instalações da indústria farmacêutica, assim como a rede elétrica civil e o abastecimento de alimentos básicos. Hoje foi apagada toda e qualquer menção aos 13 anos sanções impostas ao Iraque pelos EUA / ONU de 1990 a 2003, que causaram a morte, por fome e doença, de mais de 1 milhão de iraquianos, mais da metade deles crianças.

Apesar do estrago horrendo, o fracasso das sanções dos EUA / ONU na criação de um colapso total no Iraque obrigou o poder corporativo dos EUA a optar por uma invasão militar para impor uma mudança de regime.

Segundo aniversário das guerras na Líbia e na Síria

Nas avaliações da invasão estadunidense ao Iraque, também falta mencionar que esta é uma semana do aniversário de duas outras guerras.

19 de março é o segundo aniversário da guerra dos EUA / OTAN sobre a Líbia - os sete meses de bombardeios que destruíram as cidades modernas e bonitas, escolas, hospitais e centros culturais construídos com a estrutura petrolífera nacionalizada e o gás da Líbia. A operação da OTAN assassinou o líder líbio Muamar Kadafi em 2011 e devastou todo o país. Mas ainda não conseguiu assentar uma fonte estável de lucros para os EUA.

15 de março é o segundo aniversário do esforço contínuo dos EUA / OTAN para desestabilizar e destruir totalmente uma Síria moderna e secular.

Apesar do apoio e financiamento às monarquias feudais corruptas da Arábia Saudita e Kuwait pelos EUA / OTAN, apoio diplomático, armamento dos esquadrões da morte e mercenários, e criação de refúgios e bases na Turquia, o governo sírio tem mobilizado a população e resistiu a outra mudança de regime orquestrada pelos EUA. O conflito está em um impasse. O número de mortos já passou de 70.000.

A opção Salvador: terror em massa

A mais clara evidência de que os anos de violência sectária no Iraque depois da invasão dos EUA, os assassinatos por esquadrões da morte, campanhas de terror em massa e o uso angustiante de tortura por unidades de comando foram atos deliberados treinados, sancionados e desenvolvidos no mais alto nível do comando político e militar dos EUA foi publicada na semana de 18 de março no Guardian de Londres, acompanhada de um documentário da BBC. A exposição foi baseada em 18 meses de pesquisa.

A exposição menciona nomes como o do coronel James Steele, um veterano aposentado das Forças Especiais, que foi enviado ao Iraque pelo então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, para organizar paramilitares de modo a esmagar a insurgência iraquiana. Outro assessor especial, o coronel aposentado James Coffman, trabalhou ao lado de Steele e se reportava diretamente ao general Petraeus.

Esta política dos EUA de contra-insurgência foi chamada de "opção Salvador" - um modelo terrorista de assassinatos em massa por esquadrões da morte patrocinados pelos EUA. Foi aplicada pela primeira vez em El Salvador no auge dos anos 1980 contra a resistência a uma ditadura militar, resultando em um número estimado de 75.000 mortes. Um milhão de uma população de 6 milhões tornaram-se refugiados.

A opção Salvador é o princípio central da muitas vezes elogiada estratégia de contra-insurgência do general David Petraeus no Iraque e no Afeganistão.

Pesquisadores do Guardian analisaram uma série de documentos do Wikileaks e reuniram um grande número de denúncias de tortura praticada pelas milícias treinadas e apoiadas pelos EUA no âmbito deste programa. A BBC e o Guardian atestam que os seus pedidos para que os principais membros do Comitê de Serviços Armados do Senado dos EUA, que poderia investigar as acusações, comentassem foram recusados ou ignorados.

Mas, em Samarra, uma cidade iraquiana, onde iraquianos foram torturados em uma biblioteca e foco do documentário da BBC, os moradores realizaram manifestações em massa contra o governo e planejaram criar telas grandes na praça central para exibir o filme.

"Choque e Pavor" = terror

Desde o início da preparação para a guerra, os planos dos EUA foram calculados para usar as formas mais extremas de terror contra o povo iraquiano de modo a forçar a submissão à dominação dos EUA. "Choque e pavor" é terrorismo por outro nome.

"Choque e pavor" é tecnicamente conhecido como dominação rápida. Por sua própria definição, é uma doutrina militar que usa o poder esmagador e espetaculares demonstrações de força para paralisar e destruir a vontade de lutar. Escrito por Harlan Ullman K. e James P. Wade, em 1996, a doutrina é um produto da National Defense University, desenvolvida para explorar a "tecnologia superior, o engajamento de precisão e domínio da informação" dos Estados Unidos.

Esta bem conhecida estratégia militar exige a capacidade de perturbar "os meios de comunicação, transporte, produção de alimentos, abastecimento de água e outros aspectos da infra-estrutura." De acordo com esses criminosos estrategistas militares, o objetivo é atingir um nível de choque nacional semelhante ao efeito do lançamento das armas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki.

Aproveitadores da guerra

O saque e a pilhagem do Iraque em grande escala também foram planejados desde o início. Não era um acidente, uma política equivocada ou a névoa da guerra.

O funcionário, que tinha total autoridade no Iraque imediatamente depois da destruição pelo "choque e pavor", chefe da autoridade de ocupação no Iraque, Paul Bremer III, promulgou 100 medidas que transformaram o Iraque do dia para a noite em um grande livre mercado capitalista dependente. As 100 medidas garantiram que os investidores estrangeiros fossem proprietários de 100 por cento dos ativos iraquianos, além de garantir o direito de explorar todos os lucros, realizar importações sem restrições e acordos e arrendamentos de longo prazo – de 30 a 40 anos. Na reviravolta oficial da soberania iraquiana, essas ordens coloniais chegaram para ficar.

Bilhões foram logo roubados do Iraque. De acordo com Dirk Adriaensens do Tribunal BRussells, os administradores norte-americanos, como "autoridades" da ocupação, confiscaram todos os bens e fundos iraquianos no mundo inteiro – totalizando US$ 13 bilhões. Eles apreenderam todos os fundos iraquianos nos EUA (US$ 3 bilhões). Transferiram os fundos da conta UBS iraquiana (banco suíço) para as forças estadunidenses. Eles exigiram e receberam os fundos acumulados até março de 2003 pelo programa da ONU Petróleo-por-comida (cerca de US$ 21 bilhões)

Nas primeiras semanas de ocupação, as tropas ianques se apoderaram de cerca de 6 bilhões de dólares, bem como US$ 4 bilhões do Banco Central e de outros bancos iraquianos. Eles recolheram o dinheiro em edifícios especiais do governo em Bagdá.

Para onde todos esses recursos vão? Em vez de criar uma conta no Banco Central do Iraque para depositar esses fundos, bem como os fundos de exportação de petróleo, as autoridades de ocupação criaram a conta "Fundo de Desenvolvimento para o Iraque" no American Central Bank, New York Branch, onde todas as operações financeiras são realizadas em segredo. "Faltam" cerca de US$ 40 bilhões de um fundo pós-Guerra do Golfo.

Segundo a BBC, em 10 de junho de 2008, outros US $ 23 bilhões em fundos de ajuda do Ocidente para o Iraque foram perdidos, roubados ou "não devidamente contabilizados". Abundam histórias dos milhões de dólares em notas de US$ 100 que desapareceram em patins nos aeroportos e caixas de pizza e sacos de lã cheios de dinheiro.

De acordo com a BusinessPundit.com da lista dos 25 mais cruéis aproveitadores da guerra, esses fundos roubados foram apenas o início da partilha do espólio. Grandes corporações dos EUA registraram lucros recordes. Nos anos de 2003 a 2006, os lucros e os ganhos dobraram para a Exxon / Mobil Corp e ChevronTexaco.

KBR Halliburton, Inc., que estava diretamente ligada ao vice-presidente Cheney, ludibriaram as agências governamentais no montante de US $ 17,2 bilhões em receita relacionada à guerra do Iraque só de 2003 a 2006.

O custo da guerra

O prêmio Nobel Joseph E. Stiglitz calculou o custo da guerra do Iraque, incluindo os muitos custos ocultos, em seu livro de 2008, "A guerra de três trilhões de dólares". Ele concluiu: "Assim como não existe algo como um almoço grátis, não há tal coisa como uma guerra livre. A aventura do Iraque enfraqueceu seriamente a economia dos EUA, cujos problemas agora vão muito além do desenfreado crédito hipotecário. Você não pode gastar US$ 3 trilhões - sim, US$ 3 trilhões - em uma guerra fracassada no exterior e não sentir a dor em casa".

Stiglitz lista até que um destes trilhões poderia ter sido pago para: 8 milhões de unidades habitacionais, ou 15 milhões de professores de escolas públicas, ou cuidados de saúde de 530 milhões de crianças por um ano, ou bolsas de estudo para universidades para 43 milhões de alunos. Três trilhões poderiam ter corrigido o chamado problema de Segurança Social nos EUA por meio século.

De acordo com um relatório do Christian Science Monitor, quando são incluídos o tratamento médico contínuo, veículos de substituição e outros custos, o gasto total com a guerra no Iraque é projetado em US$ 4 trilhões. (25 de outubro de 2012)

Resistência popular e movimento anti-guerra

Os meios de comunicação desempenham outro papel importante em reescrever a história. Seu objetivo é sempre fazer o possível para marginalizar e depreciar a consciência de milhões de pessoas.

Enquanto o ataque de "choque e pavor" de 19 de março de 2003 ainda hoje é descrito, é raro ver qualquer referência nos grandes meios de comunicação às manifestações verdadeiramente maciças, que atraíram milhões de pessoas para as ruas, de oposição à guerra então iminente. Calcula-se que, antes da guerra, mais de 36 milhões de pessoas em mais de 3.000 manifestações mobilizaram-se internacionalmente para se opor – nos dois meses mais frios do inverno. Isso foi algo sem precedentes.

No Iraque, apesar da força esmagadora do "choque e pavor", o uso planejado da guerra sectária e o uso em massa de esquadrões da morte – apesar da destruição de cada realização construída por gerações passadas, juntamente com a destruição de escolas e confisco de recursos - a guerra dos EUA fracassou em todos os aspectos. Apesar das condições horrendas, a resistência iraquiana expulsou a ocupação do Iraque. Esta é uma realização de grande significado para os povos em todo o mundo.