Monday, May 30, 2016

A Operação Lava Jato versus Estratégia Nacional de Defesa

Criada em 2011, a Odebrecht Defesa e Tecnologia (ODT) estava desenvolvendo vários projetos e soluções inovadoras para a autonomia tecnológica brasileira e das Forças Armadas. Os projetos, tecnologias e produtos de alta complexidade eram tanto para uso militar como civil. A Odebrecht Defesa e Tecnologia estava atuando nos seguintes mercados de defesa militar, com possibilidade de uso civil:

1 - Embarcações e monitoramento oceânico: por meio do Programa de Desenvolvimento de Submarinos, a Odebrecht Defesa e Tecnologia, em parceria com a francesa DCNS, está produzindo o primeiro submarino com propulsão nuclear do Brasil.

Dentro das inovações totalmente nacionais se encontram o Sistema de Propulsão Nacional e o Reator Nuclear desenvolvido pela Marinha. Este Reator deverá possuir capacidade para gerar 50 MW (Mega Watts) e ter vida útil de 5 anos, o que possibilita dar várias voltas ao mundo sem reabastecimento.

2 - Armamentos inteligentes: armamentos totalmente nacionais, sob o desenvolvimento da Mectron, que possuem sistema de busca integrado e alta capacidade de detecção e rastreio de alvos. Destacam-se o MAA-1, MAA-1B, MAN-SUP, MAR-1 e o TP-1 (este, em parceria com a alemã Atlas).

O MAA-1, Míssil Ar-Ar de Curto Alcance, 3ª geração, é utilizado em combates aéreos do tipo “fire and forget” (que não precisa ser guiado pelo lançador, daí o “dispara e esqueça”), que utiliza detecção passiva infravermelha dos alvos. Produto com vários lotes já entregues à Força Aérea Brasileira, é o único míssil ar-ar totalmente integrado ao Supertucano ALX.

O MAA-1B, Míssil Ar-Ar de Curto Alcance e 4ª geração, é uma evolução do MAA-1, possuindo capacidade de contra-contramedidas eletrônicas, maior ângulo de visada e maior manobrabilidade. Seu projeto foi iniciado ainda na década de 1980 e, sob o controle da Mectron, finalmente foi totalmente desenvolvido. Foi projetado especialmente para países em desenvolvimento, pois pode ser utilizado em qualquer caça mais antigo e de baixo custo4.

O MAN-SUP, Míssil Superfície-Superfície, é utilizado em combates navais em mar aberto. Utiliza guiagem ativa a radar, trajetória “sea skimming” e possui características e performance semelhantes ao EXOCET MM-40. Seu desenvolvimento iniciou em dezembro de 2011. Está programado para o segundo semestre de 2016 o seu lançamento de qualificação.

O MAR-1, Míssil Ar-Superfície, antirradiação, é utilizado em missões de supressão da defesa antiaérea inimiga, tendo como alvos radares de superfície, e concebido para o moderno cenário de guerra eletrônica. Vinte unidades foram disparadas no Brasil e oito no Paquistão.

O TP-1, Torpedo Pesado, é parte dos objetivos estratégicos da Marinha do Brasil para assegurar a proteção da Amazônia Azul, por meio do programa do Torpedo Pesado Nacional em escala reduzida (TPNer). Este projeto está sendo desenvolvido em parceria com a alemã Atlas Elektronik.

3 - Sistemas de comunicação: sistemas como LINK BR-2 e RDS garantem a segurança da informação em comunicações estratégicas nacionais que requerem sigilo e confiabilidade. De nada adianta possuir mísseis de longo alcance e teleguiados sem um sistema confiável e totalmente nacional de comunicação entre o centro de comando e os caças.

O LINK BR-2 consiste no desenvolvimento e implantação de um Sistema de Comunicação Segura por Enlace de Dados (Data Link) para uso militar em teatros operacionais, com criptografia de dados, voz e imagens. É implementado através da instalação de EDL (Estações de Data Link) em diversos tipos de plataformas aéreas, marítimas e terrestres, incluindo aeronaves de combate, aeronaves de alerta antecipado e controle (AEW&C), planejamento, gerenciamento, entre outras. Desenvolvido pela Mectron, o Link BR-2 será o sistema padrão para orientação de caças para a FAB6.

O RDS (Rádio Definido por Software de Defesa) é coordenado pelo CTEx (Centro Tecnológico do Exército Brasileiro) que integra o Projeto Estratégico de Defesa Cibernética do Exército Brasileiro, visando a interoperabilidade da comunicação entre as Forças Armadas brasileiras.

4 - Radares: o produto projetado para a aeronave AMX, da Força Aérea Brasileira, é utilizado como o principal sensor de seu subsistema de armamento, detectando e rastreando alvos marítimos, terrestres e aéreos. É resultante de um programa binacional viabilizado através da parceria entre a Mectron e a empresa italiana Selex.

A ODT atua com os projetos acima junto à Estratégia Nacional de Defesa (END) do Estado Brasileiro para modernização e reestruturação da indústria de defesa nacional por meio de 3 empresas: Mectron, ICN e CBS. Com a prisão “preventiva” de Marcelo Odebrecht pelo “juiz” federal Sergio Moro como parte da Operação Lava Jato, todos estes projetos da Odebrecht começaram a ser atrasados, paralisados ou mesmo cancelados.

Mectron – Sediada em São José dos Campos, a empresa foi adquirida pela ODT em 2010. É especializada no desenvolvimento de produtos de alta tecnologia e sistemas complexos para uso militar e civil. Até o início deste ano, ela era 100% da Odebrecht Defesa e Tecnologia.

A ODT colocou à venda 40% da Mectron para que possa dar continuidade aos projetos dos armamentos inteligentes de tecnologia nacional. Está vendendo 40% para atender a legislação de empresa de estratégia de defesa, que a obrigada a manter 60% de capital nacional.

ICN (Itaguaí Construções Navais) – Responsável pela construção de quatro submarinos de propulsão convencional e um submarino de propulsão nuclear do Programa Nacional de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) para a Marinha. Este programa foi firmando entre Brasil e França no final de 2008. A ICN é composta pela Odebrecht, com 59%, DCNS (Direction des Constructions Navales et Services), com 41%.

O primeiro submarino convencional deveria ser entregue em janeiro de 2016. Devido aos atrasos de pagamento por parte do governo em consequência da intervenção da Operação Lava Jato, só deverá ficar pronto em 2018, sem mês definido. Um atraso de pelo menos 2 anos. A previsão inicial de entrega do submarino nuclear era para 2025, mas também sofrerá forte atraso. O Comando da Marinha informou que o ritmo das obras do estaleiro e da base naval de Itaguaí foi reduzido, no ano de 2015, em 40%.

CBS (Consórcio Baia de Sepetiba) – Responsável pelo apoio à Marinha do Brasil no planejamento, coordenação, gestão e administração das interfaces do PROSUB. É composta pela Odebrecht (50%) e DCNS Group (50%). Sofre os mesmos problemas que afetam a ICN.

RF

1 Conforme informações no site: http://odebrecht.com/pt-br/negocios/nossos-negocios/defesa-e-ecnologia

2 Revista digital Defesa Aérea & Naval, de 07/12/2012, in http://www.defesaaereanaval.com.br/submarino-nuclear-brasileiro-alvaro-alberto-sn-10

3 Conforme informações no site: http://www.odebrechtdefesa.com

4 Apresentação da Mectron na Feria Internacional del Aire y del Espacio (FIDAE), em Santiago do Chile, pela Associação Brasileira de Indústrias de Material de Defesa (ABINDE).

5 Apresentação da Mectron na Feria Internacional del Aire y del Espacio (FIDAE), em Santiago do Chile, pela Associação Brasileira de Indústrias de Material de Defesa (ABINDE).

6 Revista digital Defesa Aérea & Naval, de 17/11/2014, in http://www.defesaaereanaval.com.br/braco-da-odebrecht-cria-sistema-de-orientacao-de-cacas-para-a-fab

7 Conforme informações no site: http://www.odebrechtdefesa.com

Agência INVERTA

Thursday, May 19, 2016

Operação Lava Jato e o desmonte de nossa indústria autônoma

Toda vez que o Brasil começa a dar seus primeiros passos para se tornar uma potência tecnológica, lá vem as oligarquias conservadoras e pró-imperialistas (isto é, empresários, latifundiários e intelectuais travestidos de lobos, mas que não passam de cordeirinhos dos EUA, assim como foram as oligarquias escravocratas cordeirinhas da colonização portuguesa e, depois, da colonização inglesa) assassinar cruelmente o nosso futuro. O assassinato precoce de nosso desenvolvimento tecnológico e da nossa soberania nacional sempre foi o pano de fundo dos golpes contra o povo brasileiro, seja de fachada institucional (o Golpe Parlamentar de 1961, contra a posse de João Goulart, democraticamente eleito) ou seja sanguinário (o Golpe Militar-Civil de 1964, contra as Reformas de Base). Agora estamos vendo nosso futuro ser massacrado novamente pelas mãos conspiratórias de “nossa” oligarquia. A pregação golpista continua a mesma de sempre: converter as lideranças políticas do progresso em corruptos e os agentes do avanço tecnológico nacional em corruptores.

As ambiciosas obras de infraestrutura (obras que não são de interesse imediato dos monopólios internacionais) em torno do PAC 1 (R$ 619 bilhões1) e PAC 2 (R$ 1,066 trilhão2), entre o primeiro e segundo mandatos do presidente Lula e o primeiro da presidenta Dilma, convocaram as principais construtoras do país para reconstruir o Brasil. Foram 1,7 trilhão de reais, entre de 2007 e 2014, em obras de infraestrutura básica em energia (Luz para Todos, grandes usinas Hidrelétricas, Gasodutos), transporte (hidrovias, ferrovias, portos, aeroportos, pontes), saneamento básico (Estações de Tratamento de Águas, Coleta e Reciclagem), habitação (Minha Casa Minha Vida).

Ao mesmo tempo, os presidentes Lula e Dilma também financiaram um processo de expansão regional por meio de acordos na UNASUL (União das Nações Sul-Americanas) e na CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos). Foram investimentos na ordem de 200 bilhões de dólares3 (R$ 700 bilhões) em obras de infraestrutura de energia e transportes. As grandes construtoras nacionais foram chamadas para iniciar também a reconstrução do continente. Com estas gigantescas obras no continente, as construtoras nacionais se tornam multinacionais, avançando em nações onde o imperialismo estadunidense boicotava, e ainda boicota, abertamente seus governos democráticos e populares. Logo, as construtoras nacionais não encontravam concorrentes estadunidenses, podendo avançar e se desenvolver sem maiores restrições.

O sonho de se globalizar de dentro para fora (e não apenas globalizar seu mercado interno ou suas commodities) enfim foi alcançado pelas construtoras, particularmente pela Odebrecht e, seguida de longe, pela Andrade Gutierrez (também conhecida como a “empreiteira de Aécio Neves”). As gigantes empreiteiras nacionais Camargo Correa (conhecida como a “empreiteira da ditadura militar”) e OAS (que nasceu a partir de subcontratos com a Odebrecht nos anos 70), que ganharam gigantescas obras na época da ditadura militar, somente se tornaram multinacionais propriamente ditas a partir do segundo governo Lula. A base da transnacionalização destas construtoras nacionais foi a aliança com o governo petista, particularmente àquela que se tornou a nossa maior multinacional, a Odebrecht.

Com esta aliança, estas empresas brasileiras consolidaram sua hegemonia na construção civil precisamente aonde não havia concorrência com as multinacionais imperialistas: América Latina, África e Oriente Médio. A transnacionalização das construtoras nacionais em aliança com o governo petista foi o que pavimentou o país ao posto de sétima (ou sexta, por um ano) economia mundial e deu musculatura para exigirmos a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, incorporando o Brasil neste seleto grupo controlado por cinco gigantescas potências militares.

Mas foi sob o comando da presidenta Dilma que a transnacionalização deu um grande salto à frente. A integração do Cone Sul e a reforma no Conselho de Segurança da ONU já representavam uma significativa liderança regional, mas foi a criação do BRICS que colocou o mundo unipolar dos EUA em xeque. O BRICS foi idealizado para formar um “Novo Banco de Desenvolvimento”, em oposição aos famigerados FMI (Fundo Monetário internacional) e Banco Mundial, e instituir uma nova moeda para as transações internacionais, em oposição ao dólar. O imperialismo estadunidense então partiu para o contra-ataque, intensificando sua ofensiva terrorista para destruir todos os países em torno do BRICS. No caso do Brasil, partiram abertamente para a ofensiva golpista, boicotando o governo petista em geral e golpeando a presidenta Dilma, em particular, com sua reeleição em 2014.

Em meio à crise energética dos EUA, foi comprovada a existência dos gigantescos poços de petróleo na Bacia de Santos, no Pré-Sal (2007). Logo após esta descoberta, o governo dos EUA anunciou, em abril de 2008, o retorno das operações da famigerada Quarta Frota. Composta por 22 navios, sendo quatro cruzadores com mísseis, quatro destróieres com mísseis, 13 fragatas com mísseis e um navio hospital, é claro que não se tratava de um cruzeiro de férias para os marines no Oceano Atlântico. Também estava claro que, além de a “Petrobrás se tornar a vanguarda em águas profundas”, como afirmou o presidente da estatal José Sérgio Gabrielli, era urgente o reforço de nossa defesa armada. Foi assim que, no final deste mesmo ano (2008), o presidente Lula implanta o programa da Estratégia Nacional de Defesa (END)4 para reestruturação e modernização da indústria de defesa nacional e reorganização das Forças Armadas.

Para protegermos a nossa principal riqueza, o Pré-Sal, já não bastava apenas possuir uma Base de Alcântara para lançar satélites dos outros, precisamos também produzir satélites 100% controlados por instituições brasileiras para garantir segurança total nas transmissões de informações e dados estratégicos ao país; já não bastava apenas construir navios plataformas, precisamos também produzir submarinos de propulsão convencional e nuclear, ultra silenciosos e sem restrição de patrulha e defesa; já não bastava apenas construir jatinhos executivos, precisamos também produzir caças de ataques supersônicos, com poder de fogo e de intervenção imediata; já não bastava somente construir veículos anfíbios de combate, precisamos também produzir misseis de médio e longo alcance teleguiados. Que empresa nacional, entre todas as outras nacionais ou multinacionais, saiu na frente?

Como parte do programa da Estratégia Nacional de Defesa, a Odebrecht criou um setor de Defesa e Tecnologia. Em 2011, fundou a Odebrecht Defesa e Tecnologia para desenvolver projetos e produtos de alta complexidade de uso militar e civil, com tecnologia genuinamente brasileira. Entre seus inovadores desafios “estava” a construção do nosso primeiro submarino com propulsão nuclear, em parceria com a francesa DCNS, além da construção de quatro submarinos convencionais. Isso por si só já seria um gigantesco passo para o país, mas a Odebrecht também “estava” iniciando a produção de armamentos inteligentes, como mísseis antirradiação de alto e curto alcance com guiagem em terra, ar e mar aberto e sistemas de alta capacidade de detecção e rastreio de alvos. Somente 3 países controlam a técnica de produção de mísseis antirradiação (“invisível” ao radar), o Brasil seria o quarto... Com a prisão “preventiva” de Marcelo Odebrecht pelo “juiz” federal Sergio Moro, como parte da Operação Lava Jato, todos estes projetos da Odebrecht começaram a ser paralisados ou mesmo cancelados!

Para a “nossa” oligarquia, a aliança forjada na última década, vitoriosa nas urnas em 2014, estava colocando o Brasil no seleto grupo das grandes potências tecnológicas e desafiando o FMI, o Banco Mundial e o dólar. Logo, para eles, o governo Dilma deveria ser ferido mortalmente! O disparo golpista contra a aliança deveria ser imediato e prolongado para se matar os 2 alvos: o governo petista e a transnacional Odebrecht. A Operação Lava Jato iniciou suficientemente municiada com as espionagens da SNA (Agência de Segurança Nacional dos EUA), conforme revelação do ex-técnico Edward Snowden da CIA (Agência Central de Espionagem dos EUA). O roteiro desenvolvido pelo juiz federal Sergio Moro, Ministério Público Federal (MPF) e Polícia Federal (PF) não deixa dúvidas sobre seu objetivo: deslegitimar o governo petista (Dilma e Lula) e criminalizar o projeto de autonomia tecnológica brasileira (Odebrecht). Os vazamentos seletivos e “análises” metralhados pela grande mídia foram desfocando os agentes por trás da aliança golpista (oligarquias conservadoras e o imperialismo estadunidense) pelo desmonte da indústria genuinamente nacional e autônoma.

Em discurso proferido logo após a sua absurda e midiática condução coercitiva para um posto da Policia Federal no aeroporto de Congonhas (cujo propósito original deste local era levá-lo como preso ao juiz Sergio Moro, em Curitiba), o ex-presidente Lula falou que se deveria investigar as perdas econômicas provocadas pela Operação Lava Jato. Marcio Pochmann, presidente da Fundação Perseu Abramo, em recente entrevista, disse que “é possível estimar que no ano de 2015, quando o IBGE afirma que houve uma redução de 3,8% no PIB, 2,5% da queda tenha sido expressão das decisões da Lava Jato”. Além disso, também afirmou que das “2,6 milhões de pessoas desempregadas no ano passado..., as decisões da força-tarefa desta operação foram responsáveis por 1,5 milhão de demissões”!

A questão que tem que ser colocada não é simplesmente as duras perdas para a economia brasileira, mas sim quantos anos retrocederemos com a vitória do golpe reacionário e institucional (jurídico, parlamentar e midiático) sustentado pela Operação Lava Jato? Quantos anos retrocederemos com a privatização do Pré-Sal? Quantos anos serão necessários novamente para o povo brasileiro retomar seus grandes projetos de construção de satélites 100% nacionais, do submarino de propulsão nuclear, de caças de ataques supersônicos e dos misseis de longo alcance teleguiados? Se a “força-tarefa” da Operação Lava Jato em aliança com as oligarquias financeiras internacionais conseguirem concretizar seu golpe fascista, quantas vidas serão sacrificadas para novamente criarmos as condições para a retomada destes projetos fundamentais para a nossa soberania?
RF

1 11º Balanço Completo do PAC – 4 anos (2007 a 2010). Publicado em “http://www.pac.gov.br/sobre-o-pac/publicacoesnacionais”


2 11º Balanço Completo do PAC 2 – 4 Anos (2011 – 2014). Publicado em “http://www.pac.gov.br/sobre-o-pac/publicacoesnacionais”


3 Balanço de Atividades 2011 do Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento – COSIPLAN. Publicado em http://iirsa.org/


4 Decreto nº 6.703, de 18 de dezembro de 2008.


Agência INVERTA

Monday, May 16, 2016

Parceria Transatlântica (TTIP), a "OTAN econômica"

por Manlio Dinucci

O geógrafo Manlio Dinucci propõe aqui uma leitura coerente da estratégia de Washington abrangendo o TTIP, o golpe no regime ucraniano, as guerras da Líbia e da Síria, a onda de migrações da Turquia e a presença da OTAN nas fronteiras da Rússia. Este artigo é especialmente importante porque se muitos haviam compreendido pelo menos uma parte do quebra-cabeças, ninguém, até hoje, pôde explicar a reestruturação da OTAN na Europa.

Traduzido por V. Cione do site Rede Voltaire


Cidadãos, negócios locais, parlamentos, governos, Estados inteiros estão sem autoridade para tomarem suas próprias decisões econômicas, a qual está nas mãos de organismos controlados por multinacionais e grupos financeiros que violam os direitos dos trabalhadores, o equilíbrio do meio ambiente e a segurança alimentar, destruindo os serviços públicos e os bens comuns: por isso é preciso recusar o "Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento" (TTIP), negociado em segredo pelos Estados Unidos e pela União Europeia.
A estas razões somam-se outras, sobre as quais não se fala praticamente nada: aquelas de caráter geopolítico e geoestratégico, que revelam um projeto bem mais amplo e ameaçador. O embaixador dos EUA ao lado do representante da UE, Anthony Gardner, insiste: "há razões geoestratégicas essenciais para firmar o acordo".
O caráter destas razões é indicado pelo Conselho Nacional de Inteligência dos EUA; o qual avalia que "como consequência da decadência do Ocidente e da ascensão da Ásia, até 2030 os Estados em desenvolvimento terão superado os Estados desenvolvidos" [1]. Por isso, Hillary Clinton define a cooperação EUA/UE como "um objetivo estratégico maior em nossa aliança transatlântica", projetando uma "OTAN econômica" integrada à OTAN política e militar.
O projeto de Washington é claro: elevar a OTAN a um nível superior, criando um bloco político, econômico e militar entre EUA e UE, sempre sob comando estadunidense, que — ao lado de Israel, das monarquias do Golfo e outros — se oporia à zona euro-asiática em ascensão, fundada sobre a cooperação entre Rússia, China, bem como os Brics, o Irã e todos os países que estejam fora do domínio do Ocidente.
O primeiro passo por realizar tem sido o desenvolvimento de uma ruptura entre a União Europeia e a Rússia. Em julho de 2013, ocorreram em Washington as negociações para o TTIP, as quais não avançaram muito devido aos interesses conflitantes entre os EUA e as principais potências europeias, com as quais a Rússia estabelece acordos comerciais vantajosos. Seis meses depois, entre janeiro e fevereiro de 2014, o golpe de estado na Praça Maïdan organizado pelos EUA e pela OTAN desencadeou uma reação em cadeia (ataques contra os russos da Ucrânia, autonomia da Crimeia e sua adesão à Federação Russa, sanções e contrassanções), recriando na Europa um clima de Guerra Fria.
Ao mesmo tempo, os países da UE encontram-se submetidos à pressão dos fluxos migratórios provocados pelas guerras dos EUA e da OTAN (na Líbia e na Síria), nas quais têm participado, e por ataques terroristas cometidos pelo Estado Islâmico (criado por estas mesmas guerras).
Numa Europa dividida por muros "de contenção" dos fluxos migratórios, na qual se difunde a histeria coletiva causada pelo estado de sítio, os EUA põem em marcha a maior operação militar desde o final da Guerra Fria, instalando nas proximidades da Rússia caças-bombardeiros e aviões de guerra com capacidade nuclear.
A OTAN sob comando estadunidense, da qual fazem parte 22 dos 28 países integrantes da UE, intensifica os exercícios militares (mais de 300 em 2015) sobretudo na frente oriental. Tudo isso favorece o projeto de Washington de criar um bloco político, econômico e militar EUA-UE. Projeto que conta com a adesão incondicional da Itália, além dos países do Leste mais alinhados aos EUA do que à União Europeia.
As grandes potências, principalmente França e Alemanha, estão ainda em processo de negociação. Entretanto, ao mesmo tempo, elas se integram cada vez mais à OTAN. O Parlamento francês adotou a 7 de abril um protocolo que autorizava a instalação em seu território de comandos e de bases da OTAN, instalação esta recusada pelo país em 1966. A Alemanha —informa a revista Der Spiegel— está disposta a enviar tropas à Lituânia para reforçar o estabelecimento da OTAN nos países bálticos na fronteira com a Rússia.
A Alemanha —sempre segundo a Der Spiegel— se prepara para instalar uma base aérea na Turquia, onde já operam os caças Tornado alemães oficialmente em funções anti-Daesh, reforçando a presença da OTAN nesta zona de fundamental importância estratégica.
A integração crescente da França e da Alemanha na OTAN, sob comando estadunidense, indica que no que se refere às diferenças de interesses (em particular sobre as custosas sanções econômicas contra a Rússia) têm prevalecido as "razões geoestratégicas" do TTIP.

[1] Global Trends 2030 : Alternative Worlds, National Intelligence Council, December 2012.

Link para a versão francesa: 
http://www.voltairenet.org/article191617.html
e para o original em italiano: 
http://ilmanifesto.info/ttip-la-nato-economica/

Friday, May 6, 2016

Guerras energéticas na Europa: Navios petroleiros versus Oleodutos


A volta do Batalha de Ideias!

Agora com um layout muito mais simples e de rápida visualização. Continuamos nosso trabalho de tradução e publicação de textos que contribuam com a análise da conjuntura atual, nacional e internacional.

Na edição desta semana, um artigo de Pyotr Iskenderov, do Strategic Culture, traduzido pelo Vinicus Cione,  sobre a questão energética na Europa.

Seguimos na luta! 


Guerras energéticas na Europa: Navios petroleiros versus Oleodutos
Pyotr Iskenderov

A concorrência no mercado europeu de gás entrou numa nova fase. A russa Gazprom está aumentando gradualmente os seus fornecimentos para a Europa. A empresa está à procura de novas formas de fornecer gás pelas rotas norte-sul. Os EUA, principal rival geopolítico da Rússia, apressou-se para exportar gás natural liquefeito (GNL) transportado pelo mar.
Um petroleiro estadunidense transportando GNL produzido na Louisiana chegou ao Porto de Sines, em Portugal, a 26 de abril Esta é a primeira exportação de gás dos EUA para o mercado europeu.
"É o início da guerra de preços entre o GNL estadunidense e o gás encanado", afirmou Thierry Bros, analista da Société Générale.

Os debates sobre os gasodutos russos tornaram-se um elemento de rivalidade política, escreve o Polish Biznes Alert.

Não há nenhuma razão para discordar da afirmação polonesa.

Em todas as guerras, incluindo guerras de preços, a capacidade de um dos lados beligerantes de utilizar eficazmente os recursos disponíveis não é o único fator que pode decidir o resultado. É importante construir alianças. Quais são as chances de vitória da Rússia e dos EUA nesta guerra virtual?

Moscou pode aumentar o abastecimento para a Europa no momento. É uma vantagem óbvia. A gigante russa do gás Gazprom aumentou as exportações de gás natural para a Europa e para a Turquia entre 01 de janeiro e 16 de Abril em 22,6 % comparado ao mesmo período do ano anterior, conforme anunciou o CEO da empresa Alexey Miller, no dia 18 de abril.

Segundo ele, as exportações para a Áustria aumentaram 24,7%, para o Reino Unido 162,3%, Alemanha 21,3%, Itália 16%, Países Baixos 115%, Polônia 35,7% e França 50,2%. A posição geográfica da Áustria e a disponibilidade da infraestrutura desenvolvida, incluindo a Gas Hub Baumgarten (Central European Gas Hub), destacam este país como um caso especial. A Áustria desempenha um papel fundamental no sistema energético europeu.

Em janeiro de 2016, as exportações da Gazprom para a Áustria aumentaram 76, 2% em relação ao mesmo mês do ano passado. Os fornecimentos também cresceram em 2015. As entregas de gás aumentaram 11,5 por cento em relação a 2014.

"A Rússia fornece 25% do gás da Europa", afirma Hubertus Bardt, especialista em energia do Instituto de Pesquisa Econômica de Colônia. "Nós não conseguiríamos sem a Rússia. Mas eles precisam do dinheiro europeu. Eles provaram ser um fornecedor muito confiável, mesmo nos tempos da Guerra Fria. Se não vender o gás, toda economia e segurança social russa entra em colapso", explica o especialista.

A Rússia tem outra vantagem. Ela pode construir tanto rotas de gasodutos leste-oeste, quanto norte-sul na Europa. Por exemplo, existem negociações em curso sobre a possibilidade de a Itália receber fornecimento de gás da "rede Nord 2" via Alemanha, República Tcheca e Áustria. O projeto está previsto para seguir a rota estabelecida pelo gasoduto Nord Stream e que atravessa o Mar Báltico da região de São Petersburgo (Rússia) até a costa báltica, a nordeste da Alemanha. O gasoduto vai atravessar as águas territoriais de cinco países, nomeadamente Rússia, Finlândia, Suécia, Dinamarca e Alemanha. "De qualquer forma, eles agora recebem gás a partir da Baumgarten, se ampliarmos o alcance da Baumgarten para o Norte, constituiria uma oportunidade adicional, sem excluir a direção sul. É apenas uma diversificação das rotas ", afirmou o ministro da Energia russo Alexander Novak.
O Nord Stream-2 não exclui a participação da Rússia no projeto Poseidon, uma via submarina de alta capacidade, que irá ligar os sistemas gregos e italianos de transporte de gás natural.

A Gazprom, a italiana Edison e a grega DEPA firmaram, no dia 24 de fevereiro, um Memorando de Entendimento sobre o fornecimento de gás natural através do Mar Negro russo por meio de terceiros países para a Grécia, e depois da Grécia para a Itália, a fim de estabelecer uma rota sul para enviar gás natural russo para a Europa.

Há mais uma vantagem que faz pender a balança pro lado da Rússia - a minimização dos riscos políticos e econômicos colaterais.

Mario Mehren, Presidente do Conselho de Diretores Executivos da Wintershall, disse de forma figurada que o Mar Báltico é o melhor país de trânsito. Esta afirmação baseia-se na experiência com o Nord Stream 1. Segundo ele, sua empresa assume a responsabilidade, pois acredita que o projeto Nord Stream 2 é economicamente viável. A sua implementação é muito importante para o setor energético. Em alguns países, há críticas a este respeito. Mas deve se dar prioridade para conduzir o fornecimento de gás a um preço ideal. Esta é a meta, enfatizou Mehren em seus comentários sobre o projeto de transporte do gás natural russo que liga a Rússia com a Alemanha e outros Estados-membros da União Europeia.

Além disso, há indícios de que alguns países, como a Polônia, que têm se mostrado críticos ao Nord Stream, podem mudar em breve de posição. Varsóvia está revendo em segredo sua posição sobre o Nord Stream 2. De acordo com a Wintershall, a Polônia já apresentou a sua própria solicitação para um aumento no fornecimento de gás no momento em que o Nord Stream 2 se tornar operacional.

Há outro fator importante a ser pontuado. Os europeus, especialmente empresários, são alimentados pela política antirrussa de Bruxelas. As sanções impostas a Moscou fracassaram em sua tentativa de alterar as políticas externas e internas russas. Segundo as estatísticas, o volume de negócios do comércio UE-Rússia foi reduzido em 39% durante os primeiros dez meses de 2015. As exportações da UE para a Rússia encolheram em 43%. As exportações da Alemanha decresceram 40%, a França 48%, da Itália 38% e da Finlândia 45%.

Dadas as circunstâncias, muitos europeus encaram a política de afastamento em relação à Rússia no que se refere a acordos energéticos como uma obstinação insensata de prejudicar a Europa, beneficiando os Estados Unidos em busca de mercados para vender seu gás natural liquefeito.
Hoje, o fornecimento de gás russo para a Europa não enfrenta qualquer concorrência, mas a situação pode mudar em breve com a exportação de gás natural liquefeito (GNL) pelos Estados Unidos, Qatar e Austrália ao Velho Continente.

A extração de gás de xisto tem crescido significativamente nos Estados Unidos. Este fato tem sido alardeado pela imprensa. Um navio-tanque transportando GNL enviado pela Cheniere Energy por seu terminal de exportação em Sabine Pass, Louisiana, está a caminho de Portugal. O Wall Street Journal (WSJ) informa que o evento marca o primeiro carregamento em um relacionamento comercial que poderia abalar o mercado europeu, atualmente dominado pela Rússia.

O navio-tanque chegou ao Porto de Sines em Portugal a 26 de abril. O WSJ cita Trevor Sikorski da agência de consultoria londrina Energy Aspects. Segundo ele, o impacto do gás dos EUA na Europa "será gradual, mas começa a mudar tudo". "O novo GNL imporá uma pressão depreciativa sobre os preços, e a perda em volume e em valor poderia ser um remédio muito amargo de engolir" para a Rússia, diz o especialista.

De fato, é a primeira vez em meio século que os Estados Unidos começaram a exportar gás, mas os fornecimentos norte-americanos transportados por mar não vai substituir as exportações russas num futuro próximo. E estas são as razões:

Primeiramente, é a primeira vez em décadas que os Estados Unidos transportam gás para o exterior, mas as empresas privadas vendem com base na melhor oferta - e não apenas para os países que Washington pode querer por razões geopolíticas. Estas corporações não têm como objetivo tomar o mercado europeu da Rússia a fim de privá-la de seus lucros. Em fevereiro, por exemplo, a Cheniere Energy Inc. enviou o seu navio com o primeiro carregamento de gás natural liquefeito para o Brasil. A revista Foreign Policy relata que "para as empresas, no caso do bombeamento, congelamento e exportação de gás, a questão fundamental é a economia, e não a política. As empresas estadunidenses venderão gás para os compradores dispostos a pagar mais dinheiro - e não necessariamente aonde eles conseguem avançar a agenda estratégica dos EUA ao máximo".

Em segundo lugar, as empresas norte-americanas precisam de cadeias de abastecimento para vender GNL. Elas se utilizam de intermediários em acordos comerciais. Foreign Policy escreve que "cerca de 90 por cento da capacidade de exportação do terminal de Sabine Pass já foram engolidos por empresas privadas na Grã-Bretanha, Espanha, Índia e Coreia do Sul. Empresas como a britânica BG Group provavelmente revenderão o gás a clientes em outros países, mas a maioria dos compradores provavelmente utilizará o gás norte-americano para alimentar usinas termelétricas e para o aquecimento doméstico no interior de suas fronteiras".

A Cheniere assinou contratos de longo prazo com algumas empresas de gás europeias, incluindo a BG Group, que foi adquirida no início deste ano pela Royal Dutch Shell PLC, e a espanhola Gas Natural. Todas essas empresas participarem em projetos russos de fornecimento de gás por gasodutos. Como combinado no acordo dos acionistas firmado a 04 de setembro de 2015, cogita-se que a Royal Dutch Shell PLC fará parte do consórcio internacional Nord Stream 2. É difícil imaginar que eles deixarão os EUA privá-los dos lucros.

Em terceiro lugar, a indústria de xisto estadunidense é muito suscetível a riscos geopolíticos e às flutuações dos preços internacionais do petróleo. A Chesapeake Energy Corp. recentemente penhorou "fundamentalmente todos" os seus campos de gás, edifícios de escritórios e contratos de derivativos para manter o acesso a uma linha de crédito de US$ 4 bilhões, num momento em que a exploradora de xisto enfrenta a queda dos preços de energia. Pelo acordo, a empresa transferiu como garantia aos credores - os bancos MUFG Union Bank NA e Wells Fargo Bank Securities - 90% de suas reservas comprovadas de petróleo e gás, bem como a maior parte de seus ativos no setor imobiliário, instrumentos derivativos, depósitos e títulos. No início de fevereiro, a Chesapeake contratou um advogado para registro de uma possível falência. A empresa tinha dinheiro suficiente para fazer somente um reembolso de empréstimos de US$ 500 milhões.

Em quarto lugar, a Rússia não está parada de braços cruzados diante desta situação. A Novatek está envolvida com o projeto Yamal GNL para explorar o campo de gás de South Tambey. A partir de 2017, a empresa calcula produzir 16,5 milhões de toneladas de gás natural liquefeito anualmente. Não haverá problemas com demanda de consumo no momento em que os contratos já forem assinados. A Novatek planeja construir uma segunda planta de GNL na península de Gydan, uma característica geográfica da costa da Sibéria no Mar de Kara. As monarquias do Golfo Pérsico, especialmente o Kuwait, estão entre os potenciais compradores. O Kuwait tem planos para comprar até 1,5 milhão de toneladas de gás natural liquefeito (GNL) da Rússia anualmente, como afirmou Nasser Abdullah Saleh, diretor administrativo adjunto da Kuwait Petroleum Corporation (KPC), no dia 22 de abril.

No final de 2015, a gigante russa de energia Gazprom e a Kuwait Petroleum Corporation concordaram em cooperar nas áreas de gás natural liquefeito (GNL), gases liquefeitos de hidrocarbonetos e outros projetos petroquímicos, bem como nas áreas científica, técnica e de investimento.

Em quinto lugar, a Rússia pode oferecer um negócio mas vantajoso. Nos preços atuais, o GNL estadunidense entregue à Europa custaria cerca de US$ 4,3 por milhão de unidades térmicas britânicas (MBTU), de acordo com a Argus Media, uma agência de cotações e dados de mercado sobre combustíveis. A Rússia vende o seu gás para a Europa por US$ 5,80 por MMBTU, em média. No entanto, os especialistas dizem que a Rússia poderia praticar preços profundamente mais baixos em uma eventual guerra de preços, abaixo de US$ 3 por MMBTU.

Ao contrário de seus concorrentes estadunidenses, os produtores de gás da Rússia não estão tão fortemente vinculados aos preços internacionais do petróleo. Isso lhes permite reduzir os custos do gás sem maiores prejuízos. Os preços abaixo de US$ 3 conduziriam a concorrência norte-americana à falência.


links para o original em inglês:


Tuesday, December 23, 2014

Defender a vontade popular que reelegeu Dilma Rousseff e combater o golpismo!

 
Em sua última edição impressa, o INVERTA traz um editorial, assinado pelo Centro de Educação Popular, Pesquisas Econômicas e Sociais (CEPPES), e faz um chamado a defender a vontade popular que reelegeu Dilma Rousseff.

Diante da reação histérica de alguns setores da esquerda eleitoral em relação a nominação de alguns ministérios, o Batalha de Ideias decidiu republicar o editorial do jornal em questão, na esperança de uma leitura atenta possa suscitar um debate um pouco mais profundo sobre os rumos do novo governo, do que apenas a grosseira simplificação seguida de uma quase infantil exigência que Dilma alije a direita do poder a partir de primeiro de janeiro. Sim, também concordamos que tal fato seria muito prazeroso. Mas sejamos materialistas em nossas análises e deixemos nossos quererem pessoais um pouco de lado. Segue o texto, datado de 20 de novembro.


DEFENDER A VONTADE POPULAR QUE ELEGEU DILMA ROUSSEF E COMBATER O GOLPISMO!

“Não pode ser candidato, se for não pode ser eleito, se eleito não toma posse, se toma posse não governa” (Carlos Lacerda, sobre Vargas no pré-54). As oligarquias buscam repetir o mesmo roteiro de golpe e desestabilização usados no passado. 
 
As eleições presidenciais de 2014 trouxeram importantes ensinamentos para aqueles que almejam transformações profundas na vida de nosso país. Nem tudo pode ainda ser devidamente avaliado porque a impressão que se tem é que o processo eleitoral continua. A oposição reluta em aceitar a derrota e age como se houvesse um terceiro turno. O elemento central da campanha oposicionista não foi desativado, pelo contrário, parece oferecer a cada dia capítulos mais surpreendentes: o caso de corrupção que envolve diretores da Petrobrás e empreiteiras.

No entanto, há dois aspectos que parecem claros. O golpe que a oposição preparou para subverter a vontade popular deixou evidências inquestionáveis. O Conselho Nacional do Ministério Público puniu semana passada com 90 dias de suspensão um dos seus membros que defendeu o golpe militar. Foi noticiado também que delegados que estão à frente das investigações sobre o escândalo empreiteiras/Petrobrás fizeram propaganda eleitoral para o candidato oposicionista. Esses dois fatos poderiam parecer pequenos se um dos principais atos do golpe não tivesse sido a manobra de um periódico ativo na conspiração em responsabilizar o governo e o PT pelos desmandos na Petrobrás.

O equilíbrio entre os poderes e a função das instituições parece estar claramente subvertido. Falando da incapacidade das instituições como escola, igreja, partidos cumprirem suas missões em épocas de crise, Darcy Ribeiro falava do papel ocupado pela mídia burguesa: “o que opera é um monstruoso sistema de comunicação de massa fazendo a cabeça das pessoas. Impondo-lhes padrões de consumo inatingíveis, desejabilidades inalcançáveis, aprofundando mais a marginalidade dessas populações e seu pendor para a violência” (RIBEIRO, O povo brasileiro, p. 207, 1995).

O uso de instrumentos legais duvidosos é uma forma de violência, como no caso do mensalão, a tortura midiática e a desenvoltura do torturador de um dos réus, chegando a comparecer a sessões do legislativo onde o assunto era debatido e o recente recurso da delação premiada devem merecer nosso alerta quanto aos limites desses instrumentos. Pessoas sem culpa formada podem ser mantidas por dias, semanas e meses em regime incomunicável, enfrentando interrogatórios destinados a quebrar a moral e o equilíbrio psicológico. Não seria o caso de pelo menos relativizarmos as informações obtidas em tais condições? O que se viu durante a campanha eleitoral foi o vazamento seletivo de “informações” e a chantagem aberta.

Na campanha eleitoral passada, os tucanos tiveram que se explicar porque queriam privatizar a Petrobrás, agora se tornaram seus mais ferrenhos defensores acusando o governo de responsável pelos desmandos ali ocorridos. De fato, há evidências de corrupção, mas há vazamento seletivo de informação, abuso de instrumentos jurídicos duvidosos. O melhor mesmo é fazer como a presidenta tem dito: investigar e punir. Foi ela que reagiu prontamente à espionagem dos Estados Unidos na empresa. Quem assim age está preparado para enfrentar peixes menores.

A primeira constatação que pode ser feita é que esta campanha eleitoral tornou visíveis interesses de classes como nenhuma outra. Depois de três derrotas consecutivas e do relativo isolamento a que estavam sendo submetidas, as oligarquias partiram para ações mais ousadas, além de ressuscitarem o golpismo, cooptaram importantes setores da esquerda eleitoral, como o PSB (ressalve-se a resistência de alguns nomes a esta infame operação) e a Rede (aqui não havia mais pudores que impedisse de compactuar com o neoliberalismo).

Se o PT chegou ao poder porque as oligarquias consentiram, agora o seu reformismo já foi longe demais. Aliás, nenhuma reforma, se possível, é o que aspiram as classes dominantes no Brasil desde 1500, o que os golpes de 1954 e 64 comprovam cabalmente. O que Vargas fazia de revolucionário se não apenas criar as bases para a industrialização brasileira? João Goulart foi derrubado porque resolveu mexer no estatuto da terra, estabelecido em 1870 para assegurar que as terras do país deveriam ter donos porque logo haveria escravos libertos com necessidade de terras.

Por volta de junho/julho, o governo foi longe demais para as oligarquias: a Copa do Mundo foi realizada sem o caos apregoado e a presidenta não fugiu à luta na reunião dos BRICS. Mais uma vez deixou claro seu não alinhamento com os Estados Unidos e de defesa de um mundo multipolar. Não é demais lembrar que Dilma fez questão de fortalecer o papel da CELAC na integração latino-americana, aproximando-a do bloco dos BRICS. Sabíamos naquele momento que, derrotados, o imperialismo e as oligarquias iam reagir com fúria no processo eleitoral e assim o fizeram.

O governo que não aceitou a espionagem dos Estados Unidos. Na campanha eleitoral, a candidata Dilma não se intimidou frente às ameaças de todo o tipo, agora tem enfatizado que não compactua, nem será conivente com a corrupção. A oposição parece o aprendiz de feiticeiro e o feitiço, à medida que ganha mais autonomia começa a se voltar contra aqueles que, se não o arquitetaram, dele querem se beneficiar.  Sabemos agora que o esquema estava montado há quinze anos. Podemos dizer que, no mínimo, os tucanos não são hábeis em investigar e punir: não há ninguém preso do mensalão tucano e a compra de votos para o segundo mandato de FHC sequer mereceu o devido espaço na mídia dos monopólios, quem dirá investigação, para ficarmos apenas em dois exemplos.

Como as contradições se acirram, os golpes se multiplicam, o que o governo fez ainda é insuficiente. Precisa manter a posição de não alinhamento no cenário internacional e tomar medidas que possam ajudar a unir o povo contra o neoliberalismo. Propostas que deem expressão à vontade popular fora do processo eleitoral, como os conselhos populares e formas de controle do poder econômico nas eleições e nos meios de comunicação podem ter um forte apoio popular. A presença dos militantes nas ruas, a aproximação de setores do PSOL e PSB da candidatura de Dilma no segundo turno, particularmente no Rio de Janeiro, são bons sinais de movimentação no sentido de alianças ou frentes que possam fazer avançar nas reformas e conter o avanço da direita, fortalecida no processo eleitoral.

Aqueles que lutam pela real transformação nas estruturas sociais e econômicas, que se alinham em oposição ao neoliberalismo e os comunistas revolucionários saem da eleição com o desafio de prosseguir na construção das condições subjetivas que permitam a ruptura com o capitalismo e a construção de uma nova sociedade baseada no modo de produção comunista. O cenário que se avizinha é de maior acirramento da luta de classes e de melhores possibilidades para a luta revolucionária, na medida em que os interesses das classes ficam mais nítidos. Cada vez mais a massas serão chamadas, como fizeram na eleição, a se alinhar na luta antineoliberal, anti-imperialista e anticapitalista. O interesse de amplos setores em se organizar ficou explícito nas ações desenvolvidas para conter o golpe eleitoral, essa vitória parcial deve estimular a novas ações, como a ampliação dos comitês de luta contra o neoliberalismo e pelo socialismo; ao mesmo tempo, buscar a unidade de organizações e partidos que se alinham em torno desse eixo programático para enfrentar o imperialismo e as oligarquias.

Derrotar o golpismo e as oligarquias!
Contra o imperialismo e pela organização popular nos comitês de luta pelo socialismo!
Viva Zumbi e a luta dos trabalhadores sem-terra! Viva o Dia da Consciência Negra!

20 de novembro de 2014
Centro de Educação Popular e Pesquisas Econômicas e Sociais (CEPPES)

Wednesday, October 15, 2014

Denúncia do Golpe Eleitoral contra a reeleição de Dilma Rousseff no Brasil

Intelectuais e dirigentes de organizações populares fazem denúncia acerca de uma grave ingerência do imperialismo para manipular as eleições em nosso país.


Trabalhadores e trabalhadoras brasileiros,

Estamos diante da mais grave ameaça à nossa jovem democracia, desde o final da ditadura civil-militar na década de 80. Como no período que antecedeu ao Golpe de 1964, podemos observar grandes articulações que, neste momento, confluem para uma manipulação eleitoral antipopular que busca, com a candidatura de Aécio Neves, colocar novamente nosso país sob a administração direta do capitalismo financeiro, mais especificamente do imperialismo norte-americano.

Os trabalhadores e trabalhadoras de nosso país que, como Tiradentes, acreditam no direito que temos de decidir os rumos de nossas vidas livres de ingerências e intervenções estrangeiras, devem estar alertas e prontos para rechaçar o golpe eleitoral que a direita colocou em execução.

Que ninguém tenha dúvida, não se trata apenas de enfrentar as oligarquias mais atrasadas e reacionárias, que dominam nosso país desde 1500, mas de resistir às ações do imperialismo que efetivamente dirige diretamente as ações de desestabilização no Brasil. 

As eleições presidenciais de 2014 se converteram em um campo de batalha no qual se uniram para aplicar um Golpe Eleitoral os grandes empresários, os banqueiros, a grande imprensa e outros setores, nos quais as agências de espionagem e desestabilização dos Estados Unidos, como a CIA e a NSA, infiltram-se fortemente nos últimos anos.

As ações de espionagem contra o Brasil e mais especificamente contra a presidenta Dilma e contra a Petrobras, reveladas no vazamento de documentos da NSA, não eram apenas por concorrência econômica, como muitos afirmam. Essas ações tinham o objetivo de preparar o terreno para impedir a manutenção, em nível federal, de um governo de tendências antineoliberais. 

Fez parte dessas ações a ascensão de Marina da Silva à candidata presidencial, visando impedir uma vitória de Dilma já no primeiro turno. O respeitado professor e especialista em relações internacionais, Moniz Bandeira, testemunha direta e viva de diversas manobras da direita, como o Golpe de 1964, em carta aberta ao presidente do PSB, Roberto Amaral, relata ter inclusive enviado um alerta a Eduardo Campos, que deveria se prevenir. Sua experiência lhe dizia que uma ação desse tipo já era esperada e que Marina Silva não aceitaria ser apenas vice de Eduardo.

Conforme denunciado pelo professor Theotonio dos Santos, Marina Silva, que substituiu Campos como candidata do PSB, objetivamente cumpre o papel de instrumento do imperialismo, articulada, junto a Fernando Henrique Cardoso, no Diálogo Interamericano, instituição fundada em 1982 e que, segundo texto em seu site, reúne “100 ilustres de todo o continente americano, incluindo políticos, empresários, acadêmicos, jornalistas e outros líderes não-governamentais.”  Essa organização existe para atacar as democracias latino-americanas e foi uma das articuladoras dos recentes Golpes de Estado em Honduras e no Paraguai.

Devido ao rechaço popular às ditaduras que os Estados Unidos instauraram e mantiveram em toda a América Latina, na segunda metade do século 20, as classes dominantes não encontram apoio suficiente, nem na sociedade, nem nas Forças Armadas, para um novo Golpe Militar. Por isso, o imperialismo busca realizar um Golpe Eleitoral através de três frentes: guerra econômica, guerra midiática e  intervenções a partir de suas infiltrações na Policial Federal e em setores do judiciário.

Guerra Econômica


No final do ano passado, a presidenta Dilma, em sua mensagem de encerramento de ano disse:

“Se alguns setores, seja porque motivo for, instilarem desconfiança, especialmente desconfiança injustificada, isso é muito ruim. A guerra psicológica pode inibir investimentos e retardar iniciativas.”

A guerra psicológica é apenas uma parte de um movimento maior de guerra econômica que deve ser denunciada. Os economistas Passos, Cardoso e Brandes do DIEESE em um texto intitulado “A queda dos investimentos privados na economia brasileira nesse início de 2014” demonstram que uma taxa negativa de investimento de 2,1% no primeiro trimestre de 2014 significa que os grandes capitalistas, principalmente os de São Paulo, abstiveram-se de reinvestir o capital acumulado no ciclo anterior.

Sem qualquer compromisso com o país, eles transferiram seus investimentos para os títulos da dívida pública dos Estados Unidos na esperança de que um baixo crescimento do PIB rendesse manchetes ruins ao governo e o forçasse a tomar medidas antipopulares em pleno ano eleitoral.

Não podemos nos esquecer também do efeito da falta d'água em São Paulo, estado governado pelo PSDB de Aécio e Alckmin, que praticamente desacelerou a construção de novos empreendimentos nos últimos meses.

Outra faceta da aplicação desta Guerra Econômica nestas eleições é a manipulação do mercado através das bolsas de valores, ao sabor da conjuntura eleitoral. As repentinas e acentuadas quedas e recuperações, às vezes em um mesmo dia, de ações de grandes empresas, inclusive estatais, buscam criar fatos políticos que favorecem o candidato do imperialismo, além de operarem uma transferência de recursos das mãos dos pequenos e médios investidores para os grandes especuladores.

Um dos responsáveis por esses crimes é o megaespeculador George Soros, patrão de Armínio Fraga, indicado por Aécio Neves para assumir o Ministério da Fazenda. George Soros é conhecido por financiar ações de desestabilização em todo o mundo. Recentemente admitiu, sem o menor pudor, sua responsabilidade nos eventos que explodiram na Guerra Civil da Ucrânia, que já vitimou milhares de pessoas, principalmente civis. Soros afirmou em entrevista recente: "Criei uma fundação na Ucrânia antes de que se independizasse da Rússia. E a fundação tem operado desde então e jogou um papel importante nos acontecimentos atuais"

Os interesses dos Estados Unidos estão tão bem representados em Armínio Fraga, indicado por Aécio, que o ex-secretário do Tesouro americano Timothy Geithner chegou a indicar seu nome ao presidente Barack Obama para dirigir o FED (Banco Central dos Estados Unidos).

Recentemente, Armínio Fraga criticou a política de aumento de salário mínimo, que saltou de 86,21 dólares, em 2002, quando Lula assumiu seu primeiro mandato, para 305 dólares em 2014 (valores convertidos do real). Para ele, os salários devem ser arrochados e o orçamento público e os gastos sociais, reduzidos.

Todos se lembram do que representou o governo de FHC, no qual Armínio Fraga era presidente do Banco Central, para os níveis de salários, emprego e de escolaridade de novo povo.

Guerra Midiática


A grande imprensa burguesa, mais destacadamente seu maior representante, as Organizações Globo, repetem sua atuação das vésperas do Golpe de 1964. Martelam o dia inteiro manchetes sobre corrupção e inflação, seguindo exatamente o mesmo script utilizado para derrubar o Presidente João Goulart. Dilma é atacada como Jango foi pelas mesmas 9 famílias que detêm os monopólios de comunicação em nosso país.

Essa imprensa reacionária demonstrou seu poder ao intervir diretamente, com coberturas descaradas, sobre os eventos de junho do ano passado, convertendo os protestos contra o aumento do preço das passagens em uma nova “Marcha com Deus pela Família e Propriedade”, organizada pelas senhoras ricas contra o governo de Jango 64. Com a constante cobertura e exposição, eles criaram agora o fenômeno dos Black Block, tentando criar um clima de desestabilização, além de introduzirem bandeiras conservadoras entre as pessoas que estavam nas ruas.

Contudo, esses meios privados foram desmoralizados após o fracasso de sua campanha contra a realização da Copa do Mundo no Brasil, na qual previam um clima de caos total. A organização e a realização da Copa superou outras edições realizadas na Europa. De maneira cínica, esses meios passaram a tentar associar o governo com a derrota no gramado contra a Alemanha.

A ilustrativa pesquisa realizada pelo Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública, formado por pesquisadores da UERJ, divulgada no site Manchetômetro, demonstra claramente o bombardeio contra Dilma, por conta da desproporcionalidade em matérias negativas.

Essas ações midiáticas, de eficiência limitada entre a classe trabalhadora, busca deixar a classe média histérica e acaba promovendo uma onda de ódio racial e social. Fernando Henrique Cardoso, líder maior do PSDB, claramente  atiça esse clima ao dizer que os eleitores de Dilma são ignorantes por ela ter vencido no Nordeste.

As infiltrações no Judiciário e na Polícia Federal

A terceira grande articulação da tentativa de Golpe Eleitoral em curso envolve setores do Poder Judiciário que, ao aplicarem uma política de “dois pesos e duas medidas”, buscam mudar a correlação de forças entre o PT e o PSDB em nosso país.

O maior escândalo da história recente desse país, não apenas de corrupção, mas de entreguismo, de traição nacional, foram as privatizações das grandes empresas brasileiras como a Vale do Rio Doce e a Telebras, episódio conhecido como Privataria Tucana.

Durante o governo Fernando Henrique, todos que exerceram a presidência do Banco Central foram envolvidos em escândalos, alguns foram condenados, mas ninguém foi preso. Gustavo Franco foi responsável pelo PROER, que destinou bilhões para bancos quebrados. Seu sucessor Francisco Lopes ficou famoso por suas íntimas relações com Cacciolla do Banco Makra, que levaram os cofres públicos a um prejuízo bilionário   durante a mega desvalorização do real após a reeleição de FHC. Nomeado em seguida, Armínio Fraga elevou a taxa de juros do país para 45%, transferindo imediatamente bilhões para os banqueiros.

Enquanto os principais quadros do PT paulista foram presos e tiveram seus direitos políticos caçados, não podendo concorrer às eleições, o Mensalão do PSDB, o original, criado em Minas Gerais, durante o governo de Eduardo Azeredo não foi sequer julgado. Esta foi a origem do valerioduto tucano, esquema de financiamento irregular de campanhas, criado por Marcos Valério, ligado aos tucanos. 

A anulação, por parte de Gilmar Mendes, juiz carnalmente vinculado ao PSDB, da decisão unânime do TSE, por 7 a 0, de conceder direito de resposta ao PT na Revista Veja é apenas  uma demonstração a mais do compromisso de setores do judiciário com o retorno das velhas oligarquias ao poder.

Com relação às recentes manchetes contra a Petrobras, pautadas a partir de seleções do depoimento de dois bandidos que chegaram à empresa pelas mãos do PSDB, o Conselheiro Nacional do Ministério Público, professor Luiz Moreira, realizou uma grave denúncia contra a “tentativa de interferência na disputa eleitoral (…) Há uma engenharia responsável pelo vazamento que seleciona criteriosamente que partes devem ser divulgadas e o momento adequado para que o vazamento chame mais atenção e cause mais impacto nos eleitores (…) Cria-se a sensação de que estamos num vale-tudo e que o sistema de justiça além de imiscuir-se na disputa eleitoral também não tem compromisso com a ordem jurídica.”

Sem meias palavras, trata-se de uma tentativa de Golpe Eleitoral que se utiliza de uma cobertura de pseudolegalidade similar à utilizada no Golpe que removeu Fernando Lugo da presidência do Paraguai.

As intervenções do imperialismo têm como objetivo impedir o surgimento de um mundo multipolar


Mas, a mais contundente prova das ações de desestabilização que estão em curso, que não pode deixar nem os mais incautos tranquilos é a própria ação do imperialismo pelo mundo. Estamos indo às urnas em meio a diversas guerras que sangram todos os cantos do planeta.

Quem conhece história e acompanha a intensificação dos conflitos em todo o mundo, não pode deixar de relacionar essas eleições com a conjuntura internacional. 

A Crise do Capital e seus desdobramentos, após sua contundente manifestação em outubro de 2008, voltou a colocar em xeque o mundo unipolar que surgiu após a Guerra Fria. A perda de influência dos Estados Unidos se acentuou em todo o mundo e propiciou o surgimento de diversos blocos contra-hegemônicos, como a CELAC e os BRICS, que apontam para uma nova geopolítica e para um mundo multipolar.

Quando Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, os BRICS, reuniram-se em Fortaleza com os 33 países latino-americanos e caribenhos que formam a CELAC, logo após a Copa do Mundo, e adotaram medidas concretas contra a hegemonia norte-americana, como a criação de um banco internacional, os Estados Unidos decidiram intensificar suas ações para minar essa aliança.

A lista de ações desse tipo do Imperialismo é gigantesca. Somente nos últimos anos, durante o governo Obama, podemos destacar, longe de citar todos os casos:

Afeganistão: ocupação militar e desestabilização; América Latina: Criação da Aliança para o Pacífico para confrontar o Mercosul; Argentina: ação dos fundos abutres e pressão do Clarin; Bahrein: repressão contra os xiitas; Bielorrússia: manifestações contra Lukashenko; Bolívia: Bloqueio do avião de Evo Morales; Brasil: ações fascistas durante junho de 2013; China: estímulo ao separatismo; Coreia do Norte: constantes provocações e ameaças militares; Costa do Marfim: golpe de Estado contra o presidente Laurent Gbagbo; Cuba: bloqueio, desestabilização e criação da rede social Zunzuneo; Egito: "Primavera Árabe", condução ao poder e depois derrubada da Irmandade Muçulmana; Equador: tentativa de golpe contra Correa; El Salvador: introdução de armas ilegais que caem nas mãos dos grupos de extermínio causadores da violência no país; Rússia: grupos terroristas do Cáucaso; Haiti: indicação do presidente Martelly anos após golpe de Estado; Honduras: Golpe de Estado contra Zelaya; Hong Kong: Occupy central para atingir a China; Iêmen: constantes ataques de drones; Irã: desestabilização, assassinato de cientistas e bloqueio; Iraque: ocupação militar e criação do Estado Islâmico; Líbia: bombardeios, financiamento de mercenário e assassinato de Gadaffi; Mali: guerra civil após desestabilização da Líbia; Palestina: financiamento e armamento do estado racista de Israel; Paquistão: desestabilização e constantes ataques de drones; Paraguai: Golpe de estado contra o presidente Lugo; Quirguistão: Insuflação de conflitos étnicos e divisão do país para manter a Base Aérea de Manas; Síria: criação do Estado Islâmico e guerra civil no país; Somália: desestabilização através de radicais mercenários; Sudão: separatismo e criação Sudão do Sul para repartir petróleo; Tunísia: "Primavera Árabe"; Ucrânia: Golpe e chegada ao poder de grupos nazistas; Uganda e Quênia: caso "Kony" e militarização da região; Tailândia: Golpe de Estado; União Europeia: desestabilização do euro; Venezuela: tentativa de golpes com o não reconhecimento das eleições e sabatogens econômicas.

Resistir à direita, é, nesta conjuntura eleitoral, ser revolucionário


Neste momento um retrocesso tático (processo eleitoral brasileiro) pode significar um retrocesso estratégico em todo o continente latino-americano, ao aumentar a pressão do imperialismo que busca destruir os processos de mudanças e as conquistas obtidas pelos povos das regiões. O sonho do imperialismo é  utilizar nosso país como plataforma de agressão contra os nossos vizinhos.

Não existe porque hesitar em defender a candidatura de Dilma Roussef à reeleição como presidenta do Brasil. Isolar os setores mais reacionário das oligarquias, impedindo-os de chegarem ao governo é a batalha dos próximos dias.

Além da postura altiva em defesa da soberania nacional frente às agressões imperialistas, o governo Dilma manteve no plano interno, mesmo com limitações visíveis, a defesa do emprego, a valorização do salário mínimo e a elevação dos investimentos em educação (o acesso ao ensino superior dobrou em 12 anos) e saúde (Mais Médicos), entre outras medidas. Sabe-se que, por mais importantes que sejam, essas medidas não resolveram problemas estruturais, mas contra isso se insuflam as oligarquias reacionárias, como em 1964. Ontem, como hoje,  não aceitam nenhuma reforma que altere sua lógica de acumulação.  

Chamar o voto nulo dizendo não haver  diferenças entre os projetos em disputa, é, ao mesmo tempo, uma leitura reducionista e anti dialética da nossa realidade e a perda do bom senso contrariando a visão de todos os dirigentes dos países latino-americanos que passaram por processos revolucionários, e que torcem pela reeleição de Dilma. É uma demonstração da falta de acuidade de análise geopolítica daqueles que  nunca entenderam porque sofremos a derrota do Golpe de 1964.

Como disse Simón Bolívar, Libertador da América Latina, “Os Estados Unidos parecem destinados pela providência a infestar a América com misérias em nome da Liberdade”. Caberá ao povo brasileiro, junto às suas lideranças consequentes, frustrar os planos daqueles que querem destruir o Brasil, pátria mãe de nossos filhos e filhas.

Reeleger Dilma é defender o Brasil e a América Latina da intervenção direta do imperialismo norte-americano!

Aluisio Pampolha Bevilaqua, editor chefe do Jornal Inverta

Ana Alice Pereira, diretora do CEPPES

Andre Laino, Professor da UENF

Antonio Cícero Cassiano Sousa, diretor do CEPPES

Gaudêncio Frigotto, professor da UERJ

Georgina de Queiroz dos Santos, professora da UNISUAM

Gilberto Palmares, deputado estadual PT/RJ

Hildemar Luiz Rech, professor da FACED-UFC

Lincoln de Abreu Penna, presidente do MODECON e professor da UFRJ

Marly de Almeida Gomes Vianna, UNIVERSO, RJ

Nicolino Trompieri Filho, professor da UFC

Paulo Ramos, deputado estadual pelo PSOL/RJ

Sandra Regina Pinto Santos, diretora geral do ISERJ

Sérgio Sant’Anna, professor da UCM

Theotonio dos Santos, professor da UERJ, presidente do CEPPES e da REGGEN

Zacarias Gama, professor da UERJ


Sunday, October 12, 2014

ESQUERDA UNIDA EM TORNO DE DILMA SAI ÀS RUAS EM SÃO PAULO




São Paulo, 11 OUT – Frente à ameaça de um retorno do Brasil ao neoliberalismo, uma parte representativa de diversas agremiações da esquerda brasileira saiu às ruas ontem para declarar apoio à candidatura de Dilma Rousseff.

Em três atos consecutivos (um com enfoque na unidade dos movimentos sociais e dois de destinados à combater a onda conservadora e fascista desatada em São Paulo depois do primeiro turno das eleições), quase duas mil pessoas reuníram-se ontem no Largo do Arouche, centro da capital paulista.

Estiveram presentes no ato figuras PT historicamente ligadas aos movimentos sociais e que desta vez não resultaram eleitos nas votações devido à girada conservadora nas instâncias parlamentares, como Adriano Diogo, Renato Simões e Eduardo Suplicy, assim como figuras intelectuais que historicamente ligam-se à esquerda.

Marilena Chauí, filósofa docente da Universidade de São Paulo, apresentou uma série de denúncias em relação à candidatura neoliberal de Aécio Neves: “Elimina-se o conceito de direitos e troca-se por serviços, privados e pagos, ferindo assim o coração da democracia, disse”.

Também esteve presente Jean Willys (eleito deputado federal pelo PSOL-RJ), que foi um dos primeiros de seu partido (que liberou os militantes a votarem individualmente) a decidir apoiar Dilma Rousseff no segundo turno.

Fernando, jovem militante do Movimento de Luta Contra o Neoliberalismo disse ao INVERTA: “Não podemos hesitar. Quem acha que o Neoliberalismo pós-crise vai ser uma reedição do neoliberalismo dos anos 90, quando o centro do capitalismo mundial estava enchendo a barriga de dinheiro com o desmonte do Campo Socialista, se engana. A ameaça de um neoliberalismo do século XXI é a ameaça de um neoliberalismo beligerante, da política econômica de um capitalismo agonizante que precisa impor militarmente seu poder a todo o planeta para continuar existindo enquanto sistema. Com todas as críticas que possamos fazer, é mais do que necessário assumir a defesa combativa dos doze anos do governo Lula-Dilma e da candidatura de Dilma em 2014”.